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Estamos todos paradoxais

Postado por Bubniak em 24/10/2011 @ 11:01 | Ciencia, Filosofia, Literatura, Política |

Em A Felicidade Paradoxal, Gilles Lipovetsky faz um competente compilado das características de nosso mundo contemporâneo por ele denominado de hipermodernidade

 

A contemporaneidade está profundamente marcada por contradições em todos os campos. Da saúde à intimidade, do ambiente de trabalho ao consumo de bens materiais ou simbólicos, deparamo-nos com situações paradoxais. Por um lado, a sociedade altamente fundamentada no consumo promete a felicidade em todo momento e a qualquer custo (literalmente). No entanto, os seres humanos padecem com angústias existenciais. Aqui está uma pequena pincelada daquilo que o filósofo francês Gilles Lipovetsky apresenta em A Felicidade Paradoxal – Ensaio Sobre a Sociedade de Hiperconsumo, uma análise das características de nosso tempo por ele chamado de hipermodernidade. Sim, de acordo com o pensador francês, já deixamos no passado a pós-modernidade. Estamos agora na terceira etapa do capitalismo de consumo.

A propósito, Lipovetsky inicia sua obra de maneira didática expondo as três grandes etapas históricas da civilização consumidora. É nessa terceira fase que ele concentra sua análise, justamente por ser chamada de sociedade do hiperconsumo ou de hipermodernidade. O autor inicia essa divisão didática tomando o cuidado de explicitar que a descrição desses três grandes momentos é sumária e que o objetivo é “apenas o de abarcar num único olhar um fenômeno complexo e secular”.

Assim, nesse esquema por ele exposto, a primeira fase do capitalismo de consumo tem início em 1880 e prossegue até o fim da Segunda Guerra Mundial. Nela é possível ver a troca dos mercados locais pelos nacionais; a redução dos custos graças ao aumento da produtividade proporcionado pelas máquinas; o anonimato dos produtos vendidos a granel ganhando status graças à criação do conceito de marca; e o fato de a confiança do consumidor, antes depositada no varejista, ser transferida para o fabricante em razão, também, da expansão da ideia de “marca”.

A segunda fase é compreendida entre 1950 e fim dos anos 1970. Caracteriza-se pela chamada “sociedade da abundância”, modelo puro da “sociedade do consumo de massa”, expansão da compra de bens duráveis, “lógica da quantidade”. As palavras-chave nas organizações industriais passam a ser especialização, padronização, repetitividade, elevação dos volumes de produção. Produção e consumo de massa desembocam em uma distribuição de massa.

Já a terceira fase, objeto de atenção de Lipovetsky nesta obra, tem início a partir dos anos 1980. É um tempo no qual o consumo deixa de ser “para o outro” e passa a ser “para si”. A preocupação em impressionar os outros dá lugar à busca da satisfação pessoal, da efetiva melhora da qualidade de vida. Assistimos à expansão do turismo e demais formas de lazer. A compra passa a ser fonte de prazer, divertimento, ação lúdica. Mas é justamente nessa fase que a felicidade mostra-se paradoxal. Segue um exemplo, muito bem comentado nas palavras do próprio filósofo: “Se uma importante proporção de assalariados deseja poder trabalhar menos, a maioria das pessoas se sente frustrada por não poder consumir mais durante seus lazeres e suas férias”.

Conforme já afirmamos no início, as contradições perpassam todas as esferas. A oferta de opções de lazer é confrontada com a escassez de tempo para usufruí-las. A sociedade que prega cada vez mais satisfação, bem estar, qualidade de vida é a mesma que alimenta cobrança por produtividade, desconfiança com relação è empresa, medo de não estar à altura das novas obrigações, estresse. A sociedade que incentiva o prazer a qualquer custo, a liberdade sexual, o prazer da mesa é a mesma que anuncia aos quatro ventos a necessidade de cuidado com a saúde, as ameaças das doenças sexualmente transmissíveis e os riscos das enfermidades relacionadas ao descontrole em relação à alimentação. O esporte é visto como fonte de otimização das capacidades do corpo, mas há registro do aumento dos casos de doping. A atividade esportiva é divulgada como fonte de saúde, mas boa parte da população é sedentária. Parcela significativa da sociedade incita ao “frenesi do sempre mais, sempre novo”; outra, fundamentada na autonomia de cada consumidor, incentiva os indivíduos a recusar um “consumismo sem consciência, formatado e ‘sob influência”.

A lógica da competitividade, do superar (e superar-se) a qualquer custo não está presente apenas nas esferas empresarial e esportiva, mas perpassa o conjunto da vida. Relacionado a isso, existe o enfraquecimento dos laços coletivos e a consequente cobrança para que cada um seja ator de sua própria vida, responsável por suas competências. O que aparentemente significa liberdade mostra-se um fardo demasiadamente pesado, capaz de gerar inseguranças, desequilíbrios psíquicos e sentimentos de insuficiência pessoal.

Nessa ampla análise sociológica de Lipovetsky há espaço, inclusive, para considerações sobre a inveja e a educação familiar. A educação outrora autoritária e com a intenção de disciplinar foi substituída por uma “educação psicologizada, sem obrigação nem punição”, preocupada com a felicidade imediata do filho e em evitar a “situação constrangedora de dizer ‘não’”. Quanto à inveja: hoje, mais importante que desejar a infelicidade dos outros por suas posses, é buscar ostentar o que se tem, é mostrar que se possui tanto quanto ou mais que o próximo. Estamos em uma sociedade fortemente marcada pelo “show do eu”, pela exibição, pelo enfraquecimento brutal dos limites que antes definiam claramente público e privado (basta lembrar das redes sociais e dos big brothers, apenas para citar dois exemplos).

Acompanhamos o triunfo do cuidado com a estética e a saúde sobre a busca desenfreada de prazer. Narciso venceu Dionísio, afirma Lipovetsky. Mas um Narciso menos despreocupado que vigilante. “Narciso já não se perde na contemplação de sua imagem, consulta médicos e especialistas, adota estratégias de prevenção, muda sua alimentação, renuncia ao tabaco, protege-se do sol, pratica atividades de recuperação da forma, corrige sua aparência física”.

Lipovetsky, obviamente, acredita que novas formas de interagir com o consumo ainda despontarão. Segundo o autor, tão certa como a dificuldade de precisar como e quando isso acontecerá é a afirmação de que mudanças virão. O que o livro nos entrega não chega a surpreender pela novidade. Trata-se de um compilado de muitas situações que verificamos facilmente em nosso cotidiano corporativo, religioso, familiar, sexual, midiático. Mas, sem dúvida, é um agregado de observações e análises bastante competente.

 

Tiago Luiz Bubniak

 

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