Crime e Castigo - 1866

       O narrador começa por apresentar aquele que será o herói do romance: Ródion Ramanovich Raskolnikov e esclarece as condições psicológicas e sociais em que se encontra: Mas havia já algum tempo que ele se encontrava num estado de excitação nervosa, vizinho da hipocondria. Isolando-se e concentrando-se, conseguira não só esquivar-se da senhoria, como também de seus semelhantes. A pobreza esmagava-o; ultimamente, porém, chegara a ser-lhe indiferente. Renunciara por completo às suas ocupações. Já no início do romance o narrador fornece pistas de que o herói tem em mente um projeto incomum:
      Conhecia precisamente a distância entre a sua morada e o lugar aonde se dirigia: setecentos e trinta passos, nem mais nem menos. Contara-os quando o projeto tinha no seu espírito apenas a forma vaga de um sonho. Nesse tempo nem mesmo supunha que tal idéia viesse a tomar corpo e a fixar-se.
      Raskolnikov planejava matar uma velha usurária e roubá-la; fora visitá-la, intentando um ensaio, levando uns objetos para colocar sob penhor. Desde já, mesmo sendo somente um ensaio, Raskolnikov sentia muito medo. Com o coração angustiado, os membros rudemente agitados por um tremor nervoso, aproximou-se de um grande prédio, que dava de um lado para o canal e de outro para a rua...
      Se tenho agora tanto medo, que será quando for de verdade?, pensou quando chegava ao quarto andar. Por várias vezes, em seu projeto, o herói hesita, em momentos de violentas confusões, exclamava: Meu Deus, como tudo isso é repugnante! Será possível que eu... Não! É uma loucura, um absurdo! Como pude ter tão horrível idéia? Pois eu seria capaz de tamanha infâmia? Isto é odioso, ignóbil, nojento!... E, no entanto, durante um mês eu...
      Depois do término do ensaio sente, Raskolnikov, súbita necessidade de convivência, pára em uma taverna e é onde conhece a impactante figura de Marmeladov, quem lhe passa a narrar as desventuras de sua vida e de sua família: Este homem, de mais de cinqüenta anos, era de estatura mediana e aparência robusta. A cabeça, quase calva, conservava raros cabelos grisalhos. O rosto cheio, amarelo-esverdeado, denunciava intemperança; entre as pálpebras inchadas brilhavam os pequenos olhos, avermelhados e penetrantes. A característica dessa fisionomia era o olhar, onde brilhavam a chama da inteligência e uma vaga expressão de loucura. Tratava-se de um ex-funcionário público que após perder o emprego entregou-se ao álcool, enquanto sua filha acabou entregue à prostituição para salvar da fome seus irmãozinhos. Raskolnikov ouve sua triste história pacientemente e depois o acompanha até sua casa.
      Quando Raskolnikov volta para casa, Nastácia, cozinheira e única criada da hospedaria, entrega-lhe uma carta que sua mãe lhe enviara. Nela, sua mãe lhe narra algumas desventuras pelas quais sua irmã passara e lhe conta que agora, superadas todas as dificuldades sofridas, estava por se casar com um advogado de futuro promissor, Piotr Petróvitch Lujin, e que dentro em breve iriam, sua mãe e sua irmã, visitá-lo em São Petersburgo. Raskolnikov desde o início se posiciona contra o casamento da irmã por crer que ela está se vendendo, como uma prostituta, em favor não dela própria, mas por Raskolnikov , seu irmão, que fora obrigado a largar os estudos por falta de dinheiro.
      Após ler a carta sai sem rumo pelas ruas e então se dá outro acontecimento marcante para o herói.
      Depara-se com uma jovem adolescente embriagada que estaria sendo alvo de intenções nada benévolas de um homem. Raskolnikov rapidamente percebe que a menina estava sendo explorada e a ajuda. Quase briga com o sujeito mas é detido por um guarda que também percebe a situação e tenta ajudar a menina a retornar para a sua casa, resolvendo, desta forma, o impasse. Pobrezinha, disse ele olhando para o banco onde a jovem se deitara, quando voltar a si há de chorar, depois a mãe saberá da aventura, bater-lhe-á para juntar a humilhação à dor, é provável que a ponha na rua...
      Mas onde (Raskolnikov) queria ir? Pensa em visitar seu amigo dos tempos da faculdade, Razumikin, mas acaba por decidir que iria vê-lo somente depois de concluir aquela empresa que já lhe constituía uma idéia fixa.
      Passou em frente de uma taverna e ocorreu-lhe que estava com fome. Bebeu aguardente. O álcool produziu-lhe logo efeito, provocando forte sonolência, deitou entre alguns arbustos e dormiu. Dormiu e sonhou um sonho aterrador no qual alguns malévolos senhores surravam até a morte um pequeno cavalo fraco e magro.
      Ao acordar tenta interpretar o próprio sonho: Graças a Deus foi um sonho!, pensou. Mas dar-se-á o caso que seja um princípio de febre? Um sonho tão horrendo dá-me que pensar.(...)
      Meu Deus!, monologou, será possível que eu vá abrir com um machado o crânio dessa mulher!... Será possível que eu atravesse o sangue e vá arrombar a fechadura, roubar e depois esconder-me, a tremer, ensangüentado... Senhor, isso será possível?
      O narrador descreve uma conversa de taverna que Raskolnikov ouvira e que teria uma influência decisiva no seu destino... Dois senhores - um militar e um estudante - bebendo e conversando sobre a usurária Alena Ivanovna e sua irmã Isabel as quais moravam juntas, sendo esta última extremamente explorada pela irmã e descrita da seguinte forma:

      - Mas tu dizes que ela é horrível!, observou o militar.
      - É muito trigueira realmente; parece um soldado vestido de mulher; mas não se pode dizer que seja um monstro. A fisionomia é muito bondosa, e os olhos têm uma grande expressão de ternura... A prova está em que agrada a muita gente, é muito pacata, paciente, meiga, caráter dócil... E o sorriso chega a ser atraente. Em relação a Alena Ivanovna, a adela: - Quanto à maldita velha, asseguro-te que era capaz de assassinar para roubá-la, sem o menor remorso, acrescentou vivamente o estudante.

      O oficial riu-se e Raskolnikov estremeceu. Estas palavras tinha um extraordinário eco no seu coração! Por obra do acaso, andando pelo Mercado do Feno, Raskolnikov ouve uma conversa de Isabel com um comerciante e vem a saber que no dia seguinte, às sete horas, Isabel não estaria em sua casa, ou seja, a velha estaria só em casa...
No dia seguinte realizou todos os preparativos para a sua empresa e foi colocá-la em prática. Combatendo os medos e as contradições que o assombravam naquele momento, matou a velha e roubou o que havia em seu cofre. O que não contava é que Isabel haveria de retornar antes que ele deixasse o local do crime. Foi forçado a matar também Isabel. Ambos crimes foram análogos no método cruel usado: seus crânios esfacelados à machadadas.
      Depois de fugir sem ser visto, voltou para a hospedaria e trancou-se em seu quarto: No seu cérebro baralhavam-se os pensamentos; mas, por mais esforços que se fizesse, não conseguiu seguir nenhum...

Crime e Castigo, Editora: 34, 561 páginas.