O Grande Inquisidor
De repente, abre-se a porta de ferro da prisão, e o Grande Inquisidor entra lentamente, trazendo à mão uma lanterna. Está só, e imediatamente a porta se fecha atrás dele. O velho se detém no umbral, e, durante um minuto ou dois, estuda longamente o rosto do seu Prisioneiro. Enfim, aproxima-se a passo lento, depõe a lanterna na mesa e diz: "És Tu, Tu?" - e como não recebe resposta acrescenta logo: - "Não respondas, cala-Te. Que poderias dizer, aliás? Sei muito bem o que dirias. Mas não tens direito de acrescentar nada ao que já disseste. Porque nos vieste perturbar? Pois nos vieste perturbar, bem o sabes. Mas saberás o que vai acontecer amanhã? Não sei quem és Tu, nem o quero saber; não sei se realmente és Tu, ou apenas uma aparência dEle, porém amanhã mesmo Te hei de julgar e condenar a morrer na fogueira, como o pior dos hereges. E esse mesmo povo que hoje ainda Te beijava os pés, amanhã, a um sinal meu, há de se precipitar para trazer lenha à tua fogueira. Sabes disso? Sim, talvez o saibas", ajunta o cardeal, pensativo, sem tirar os olhos do Prisioneiro.
- Não compreendo bem, Ivan, o que isso quer dizer, falou sorridente Alioscha, que escutara em silêncio; será uma fantasia desenfreada, engano do velho, algum quiproquó impossível?
- Opta pelo último caso, respondeu Ivan, rindo. Se o realismo moderno te estragou de tal maneira que não podes suportar uma coisa fantástica...admitamos que se trata de um mal-entendido. É verdade que o velho tem noventa anos e talvez sua idéia fixa lhe tirou o juízo. Por outro lado, quem sabe? A vista do Prisioneiro o impressionou. E poderia ser afinal um acesso de delírio, a alucinação dum velho nonagenário, próximo da morte, e superexcitado pelo recente auto-de-fé. Que nos importa que seja um engano ou uma fantasia? O velho tem necessidade de se expandir uma vez por todas; e articula afinal em voz alta aquilo que calou durante noventa anos.
- E o Prisioneiro também se cala? Olha para o velho e não diz nada?
- Sim, e aliás é assim mesmo que acontece sempre, tornou Ivan, rindo mais uma vez. O velho ademais lhe afirmara que Ele não tinha sequer o direito de acrescentar fosse o que fosse ao que Ele próprio dissera. Se quiseres, poderá ver nisso o traço fundamental do catolicismo romano, - pelo menos na minha opinião. "Tudo já foi por Ti transmitido ao papa; quanto a Ti, não é preciso sequer que voltes; não nos incomodes, pelo menos durante algum tempo." Os católicos não só dizem, como escrevem coisas nesse gênero; sobretudo os jesuítas. Eu próprio as li, nos livros dos doutores católicos. "Terás o direito de nos revelar um único dos mistérios do mundo de onde Tu vens?" pergunta o meu velho - e o próprio velho responde em lugar do Outro: "Não, não tens esse direito, para não acrescentares nada ao que já foi dito, para que não prives o homem daquela liberdade que tanto defendias quando estavas na terra. Tudo que revelares agora virá ferir a liberdade de fé dos homens. Não eras Tu próprio que dizias: "Quero que sejais livres"? Agora, porém, já viste esses homens "livres" - acrescentou o velho com um sorriso penetrante. Custou-nos caro, continuou o Inquisidor, olhando-O severamente, - mas afinal acabamos a nossa obra, em Teu nome. Durante quinze séculos, muito tormento enfrentamos por causa dessa liberdade. - hoje contudo isso acabou, acabou de todo. Não crês que esteja acabado? Olhas-me com doçura, e nem sequer me honras com a Tua cólera? Pois fica sabendo que agora os homens estão mais convencidos do que nunca de que são completamente livres. E, entretanto, eles próprios nos entregaram a sua liberdade, no-la puseram humildemente aos pés. Fomos nós que realizamos isso. Era essa entretanto a liberdade que desejavas?
- Já não compreendo outra vez, atalhou Alioscha. O Inquisidor faz ironia, zomba?
- Absolutamente. Ele considera um mérito, seu e dos seus, ter afinal vencido a liberdade, e haver agido assim para a felicidade dos homens. "Porque agora (refere-se à Inquisição, é lógico) se pode pela primeira vez pensar na felicidade dos homens. O homem, tal como foi criado, é um rebelde; e rebeldes poderão ser felizes? E, no entanto, foste prevenido; não Te faltaram advertências, porém não as escutaste. Repeliste a única maneira de tornar os homens felizes; mas, por sorte, Tu nos transmitiste a Tua obra, ao partir. Prometeste, selaste a promessa com a Tua palavra, deste-nos o direito de ligar e desligar, e decerto não podes agora nos privar desse direito. Por que, pois, nos vens perturbar?"
- Que significa essa frase: "Não Te faltaram advertências"? Perguntou Alioscha.
- É aí que está, precisamente, o ponto capital do discurso do velho.
"O espírito terrível e inteligente, o espírito da autodestruição e do não ser, o grande espírito, continuou o velho, falou contigo, no deserto, e os livros contam que ele Te "tentou". Mas poderia haver nada mais verídico que o conteúdo das três questões repelidas por Ti, e que as Escrituras chamam "tentações"? E se algum dia um milagre, um milagre fulminante, se operou sobre a terra, foi nesse dia, no dia das três tentações. Consiste o milagre justamente no fato de terem sido feitas essas três perguntas. E na hipótese de não nos terem sido conservadas pelas Escrituras essas três perguntas do terrível espírito - teria sido mister reconstituí-las, inventá-las de novo, e reunir para esse fim todos os sábios da terra: chefes de Estado, grão-sacerdote, filósofos, propondo-lhes o seguinte: "Inventai três perguntas que não só estejam de acordo com a importância do acontecimento, mas que exprimam em três palavras, em três frases toda a história futura da humanidade". E supõe que toda a sabedoria do mundo seria capaz de imaginar qualquer coisa tão profunda e tão poderosa quanto aquelas três perguntas que Te foram feitas no deserto pelo espírito inteligente e poderoso? Só por essas perguntas, pelo milagre da sua criação, se compreende que elas partiram de uma inteligência não humana e mutável, mas eterna e absoluta. Porque elas concentram e predizem todo o desenvolvimento da humanidade, e reúnem em si todas as contradições insolúveis da natureza humana. O seu conteúdo não poderia ter sido compreendido, então, porque o futuro ainda era desconhecido; mas agora, que quinze séculos se passaram, vemos que essas três perguntas tinham previsto tudo, exatamente, e que suas predições foram tão integralmente justificadas que nada se lhes poderia acrescentar ou cortar.
"Vê pois Tu mesmo que tinha razão: Tu ou aquele que Te interrogava? Lembra-Te da sua primeira pergunta e sua significação profunda: "Queres caminhar para os homens de mãos vazias, oferecendo-lhes uma liberdade que, na sua simplicidade e na sua corrupção inatas, não poderão sequer compreender, e da qual terão medo, pois nunca houve nada mais intolerável que a liberdade para o homem e para as sociedades humanas. Mas vês essas pedras, no deserto árido e ardente? Transforma-as em pães, e, igual a um rebanho, a humanidade reconhecida e obediente se precipitará aos Teus pés, tremendo ao mesmo tempo no pavor de que retires a Tua mão e não lhes dês mais pão." Mas tu recusaste privar o homem da sua liberdade e repeliste a proposta porque - pensaste, que vale uma liberdade que se compra com pão? Respondeste que nem só de pão vive o homem. Porém não sabes que será precisamente em nome deste pão terrestre que se erguerá contra Ti e Te vencerá o espírito da terra, e que todos o seguirão, clamando: "Quem é semelhante a essa Besta que nos deu o fogo do céu?" Sabes que passarão os séculos, e que a humanidade proclamará pela boca dos seus sábios que não existe crime, nem pecado, portanto, e que há apenas famintos? "Dá-lhes de comer, e depois exige que sejam bons!" Eis o que será escrito no estandarte que hão de erguer contra Ti, e que abate o Teu templo. Um novo edifício se há de erguer no local do Teu templo - uma nova torre de Babel; e embora a nova Babel deva ficar inacabada como a primeira, Tu poderias entretanto ter poupado aos homens essa segunda torre, poderias poupar mil anos de penas aos humanos, porque eles acabarão voltando para junto de nós, depois de mil anos de sofrimento em redor da sua torre. Irão nos procurar debaixo da terra, nas catacumbas (porque de novo seremos perseguidos e martirizados) e quando nos encontrarem, hão de implorar: "dai-nos de comer, porque aqueles que nos prometeram o fogo do céu não no-lo deram!" E então nós completaremos a torre, porque aquele que os alimentar é que há de acabar, e só nós os alimentaremos, dizendo que o fazemos em Teu nome - o que será uma mentira. Oh, nunca, nunca conseguirão eles alimento sem o nosso auxílio. Nenhuma ciência lhes dará o pão enquanto se conservarem livres; porém no fim, eles próprios virão depor sua liberdade aos nossos pés, dizendo: "melhor será que nos torneis escravos, contanto que nos deis de comer". Compreenderão afinal que a liberdade é inconciliável com o pão da terra, porque jamais saberão partilhar entre si. Acabarão também convencidos de que jamais serão capazes de ser livres, porque são fracos, miseráveis e rebeldes. Tu lhes prometeste o pão do céu: mas - repito-o - poderá o pão do céu ser comparado ao pão terrestre, aos olhos da raça humana, imponente, sempre ingrata e corrompida? E se milhares de milhões de seres incapazes de preferir o pão celeste ao pão da terra? Só Te serão caros as dezenas de milhares de grandes e fortes, e os outros tão numerosos quanto areias do mar, os fracos que apesar de tudo Te amam, não servirão senão de instrumento aos grandes e aos fortes? Não, os fracos também nos são caros. São entes rebeldes e corrompidos, porém acabarão obedecendo. Hão de nos admitir e considerar como deuses, porque consentimos em assumir essa liberdade. Mas nós - nós diremos que Te obedecemos, e que reinamos em Teu nome. Mais uma vez os enganaremos, porque não já consentiremos, então, que Te aproximes deles... E nessa impostura é que consistirá o nosso sofrimento, porque seremos obrigados a mentir.
"Eis o que significa a primeira pergunta que Te foi feita no deserto; eis o que repeliste em nome da liberdade que colocaste acima de tudo. E entretanto a apóstrofe do anjo guardava dentro de si um dos grandes segredos deste mundo. Aceitando os "pães", Tu terias aplacado a eterna e universal inquietação humana, - tanto do indivíduo isolado como da humanidade em geral: "Diante de quem me hei de prosternar?" Não existe para o homem, assim que ele se sente livre, preocupação mais constante, mais aflitiva, que a de descobrir alguém a quem adorar. Contudo, ele só se quer prosternar diante do que é incontestável, - de tal modo incontestável que todos os homens consintam em se prosternar em massa diante do seu deus. Pois o que atormenta esses miseráveis não é descobrir uma coisa diante da qual hão de prosternar alguns poucos, mas descobrir um objeto no qual todos possam crer, que todos possam adorar simultaneamente. Foi precisamente a necessidade de um culto comum que constituiu sempre o principal tormento de cada indivíduo e da humanidade inteira. Em nome dessa universal adoração se exterminaram reciprocamente pela espada. Criavam deuses e se apostrofavam uns aos outros: "deixai vossos deuses e vinde adorar o nossos - senão morte a vós e aos vossos deuses!" e assim há de ser até o fim do mundo, porque então não haverá mais deuses, e eles se hão de prosternar diante de ídolos. Tu conhecias, tu não poderias deixar de conhecer esse segredo essencial à natureza humana. Mas repeliste o único meio que Te ofereciam para congregar a humanidade num culto único, indiscutível, levantando o estandarte do pão terrestre; e repeliste-o em nome da liberdade e do pão celeste. Vê pois o que fizeste ainda, sempre em nome da liberdade. Ora, já Te disse que não há cuidado mais doloroso para o homem que a preocupação de encontrar alguém a quem possa transmitir o mais depressa possível esse dom da liberdade com o qual nasce, o desgraçado. Mas só se apodera da liberdade dos homens aquele que lhes tranqüiliza a consciência. Dispondo do pães, Tu possuirias um instrumento infalível; dar-lhes-ias o pão e os homens Te adorariam, porque nada é mais indiscutível do que o pão. E se alguém, que não Tu, se apodera da consciência humana, então eles abandonarão até mesmo o Teu pão, para seguir aqueles que lhes seduziu a consciência. A esse respeito, tinhas razão. Porque a essência íntima do homem não é apenas viver, mas viver para qualquer coisa. Sem uma noção firme do motivo para que vive, o homem não há de querer viver, e preferirá destruir-se, embora cercado de pães. É verdade, sei, - porém que fizeste?
"Em vez de te apoderares da liberdade dos homens, o que fizeste foi encarecer ainda mais essa liberdade aos seus olhos. Esqueceste que a tranqüilidade e até mesmo a morte são preferíveis, para o homem, à liberdade de discernir o bem e o mal? Não há nada mais sedutor aos olhos dos homens do que a liberdade de consciência, mas também não há nada mais terrível. E em lugar de pacificar a consciência humana, de uma vez por todas, mediante sólidos princípios, Tu lhes ofereceste o que há de mais estranho, de mais enigmático, de mais indeterminado, tudo que ultrapassava as forças humanas; agiste pois como se não amasse os homens, Tu que vieste para lhes dar a Tua vida. Em vez de Te apoderares da liberdade humana, Tu a multiplicaste, e assim fazendo, envenenaste com tormentos a vida do homem, durante toda a eternidade. Tinhas sede de um amor livre, querias que o homem Te seguisse livremente, seduzido por Ti. Em vez de se apoiar na antiga lei rigorosa, o homem deveria como doravante, com o coração livre, escolher o que era o bem e o mal, tendo apenas a Tua imagem para se guiar. Mas não pensaste que ele acabaria repelindo a Tua imagem e a Tua verdade, esmagado por esse fardo terrível que é a liberdade de escolher? Eles hão de afirmar que a verdade não está em Ti, porque seria impossível atirá-los a angústias e a sofrimentos piores que os sofrimentos e angústias em que os mergulhaste, pondo-lhes à frente tantos problemas e cuidados insolúveis. Assim, pois, Tu próprio preparaste a ruína do Teu reino; não acuses ninguém. E o que Te foi proposto entretanto? Existem três forças na Terra, as únicas capazes de subjugar e vencer para sempre, e para sua própria felicidade, a consciência desses miseráveis rebeldes. Essas três forças são: O Milagre, o Mistério e a Autoridade. Repeliste-as todas, criando assim um exemplo. Quando o espírito terrível e poderoso Te levou até ao alto do templo e Te disse: "se queres saber se és o filho de Deus, precipita-Te daqui para baixo, porque está escrito que "os anjos O hão de segurar e carregar e Ele não cairá por terra nem Se despedaçará", e saberás então se és o filho de Deus e provarás a Tua fé no Teu Pai." E Tu, depois de ouvi-lo, repeliste a sua proposta. Não Te deixaste tentar e não Te precipitaste do alto do templo. Oh! é verdade que agiste com sublime altivez, como Deus o devera fazer; mas os homens, essa fraca raça de rebeldes, serão por acaso deuses? Oh! compreendeste muito bem que, se houvesses feito um único movimento para saltar lá embaixo, terias imediatamente tentado o Senhor, perdido a tua fé nEle, e para a alegria do espírito inteligente que estava tentando-Te, Tu Te terias esmagado nessa terra que vinhas salvar. Mas, repito-o: haverá muitos iguais a Ti? Poderias realmente admitir, por um instante sequer, que o homens tivessem forçar para suportar uma tentação? Terá sido a natureza humana criada capaz de repelir o milagre e se entregar à livre decisão do coração, em momentos tão terríveis quanto esse, em face dos problemas mais essenciais, mais dolorosos que lhe possam ser propostos? Oh, sim! Tu sabias que o Teu ato sublime seria relatado nos livros, atravessaria os séculos e chegaria aos últimos limites da terra; e esperavas que, seguindo o Teu exemplo, o homem tivesse confiança em Deus, sem carecer de milagres. Contudo deverias saber também, que, renunciado ao milagre, o homem imediatamente renunciaria a Deus, porque não é propriamente a Deus que o homem procura, mas ao milagre. E como o homem é incapaz de dispensar o milagre, novos milagres inventará, - milagres seus - aceitará a feitiçaria e os charlatães, por mais revoltado, por mais herético, por mais ateu que seja. Não desceste da cruz, quando Te gritaram por escárnio e insulto: "Desce da cruz e acreditaremos em Ti!" Não desceste porque, mais uma vez, não quiseste escravizar o homem graças a um milagre, porque aspiravas a um amor livre, e não aos transportes servis do escravo aterrorizado diante de uma potência que o esmaga. Mas estavas novamente a fazer um juízo por demais elevado dos homens, porque eles na verdade não passam de escravos, embora por natureza sejam também revoltados.
"Olha e julga: quinze séculos se passaram; olha-os: quem foi que conseguiste elevar até a Ti? Sou eu que To juro: o homem foi criado mais vil e mais débil do que o imaginaste. Poderá ele realizar os mesmos feitos que Tu? Colocando-o tão alto, cessaste, por assim dizer, de ter piedade, porque lhe exigias demais, Tu que o amavas mais do que a Ti próprio. Se o houvesses estimado menos, menos também lhe haverias exigido, e isso ficaria mais conforme o Teu amor, porque o fardo do homem seria muito mais leve. Ele é fraco e covarde. E verdade que é também orgulhoso e continuamente se rebela contra o nosso poder, mas que importa! Orgulho de criança, de estudantes que se revoltam na aula e expulsam o professor. Um dia, entretanto, a alegria deles há de acabar e hão de pagá-la caro. Hão de derrubar os templos e inundar a Terra de sangue. E depois hão de descobrir, essas crianças insensatas, que não passam de débeis amotinados, incapazes de suportar a própria audácia. Com o rosto banhado em lágrimas, hão de reconhecer que Aquele que os criou assim rebeldes, queria apenas zombar da sua criação. E dirão isso com desespero, e isso será uma blasfêmia que os tornará ainda mais infelizes, porque a natureza humana não suporta a blasfêmia, e acaba punindo-se com as suas próprias mãos. E assim, pois, - inquietação, angústia, sofrimento, são a sina reservada ao homem, depois que tanto sofreste para a sua liberdade. Teu profeta disse, exprimindo-se em símbolos, que viu todos os ressuscitados, e que havia doze mil em cada tribo. Mas se esse era o seu número - já não eram quase deuses! E os outros? Será culpa dos fracos, se não podem suportar o que sofrem os fortes? Será culpa da alma débil, se ela não tem forças para receber dons assim terríveis? Será que vieste apenas para o eleitos? Nesse caso há nisso um mistério que não nos é dado compreender. E se é um mistério, nós então temos direito de ensinar esse mistério, e dizer aos homens que não é a livre decisão dos seus corações nem o amor o que importa, mas o mistério ao qual se devem submeter cegamente, mesmo de encontro à própria consciência.
"Foi assim que fizemos. Corrigimos a Tua obra, fundamo-la no Milagre, no Mistério e na Autoridade. E os homens ficaram contentes por serem de novo guiados como um rebanho, e por lhes haverem tirado enfim do coração o peso desse dom terrível que traz consigo tanto sofrimento. Dize: teríamos razão em ensinar e agir assim? Reconhecendo humildemente a fraqueza da humanidade, aliviando-lhe o fardo e lhe permitindo pecar, mas com nossa vênia - não a temos amado? Por que vieste então nos perturbar? E por que me fitas em silêncio, com Teus meigos olhos penetrantes? Zanga-te, que eu não quero o Teu amor, pois não Te amo. Por que dissimularia eu diante de Ti? Não sei a Quem estou falando? Sabias de antemão o que eu ia Te dizer; leio-o nos Teus olhos. Poderia eu esconder-Te o nosso segredo? Será que o queres ouvir de minha boca? Escuta, pois.
"Nós não estamos Contigo, mas com Ele. É esse o nosso segredo, já há muito tempo que não estamos mais Contigo, mas com Ele; já há oito séculos. Faz exatamente oito séculos que aceitamos dEle o que recusaste com indignação, - aquele derradeiro dom que Ele Te ofereceu, mostrando-Te todos os reinos da Terra. Aceitamos Roma e a espada de César, e nos proclamamos os únicos reis do mundo, embora até agora não tenhamos podido realizar completamente a nossa tarefa. Mas de quem é a culpa? Oh! estamos apenas no início da nossa obra, porém já a começamos. É preciso ainda esperar muito tempo, e a Terra terá muito ainda que sofrer; mas atingiremos a nossa meta, seremos Césares, e cuidaremos então da felicidade universal. E entretanto, Tu poderias naquele dia ter aceito a espada de César. Por que recusaste esse último dom?
"Se houvesse aceito o terceiro conselho do espírito, terias satisfeito todas as necessidades dos homens sobre a Terra, porque eles procuram a quem adorar, a quem entregar a própria consciência, a maneira segundo a qual, finalmente, hão de se reunir definitivamente num formigueiro comum, - porque a necessidade de união universal é o terceiro e último tormento da humanidade. A humanidade, no seu conjunto, sempre aspirou organizar-se num todo. Muitos grandes povos tiveram história gloriosas; mas quão maiores eram esses povos, mais infelizes eram, porque sentiam cada vez mais forte essa necessidade de organização universal. Os grandes conquistadores, os Timur e os Gengis-Kan, que pretendiam dominar o mundo, passaram pela Terra como uma tempestade; mas também eles, embora inconscientemente, encarnavam essa sede de unidade do gênero humano. Se houvesse aceito o mundo e a púrpura de César, que detêm suas consciências e dispõe do seu pão? Nós tomamos pois a espada de César, e ao recebê-la evidentemente Te abandonamos a ti, para seguir a Ele. Oh! e vão se passar ainda séculos de desordem espiritual, de ciência, de antropofagia, porque, começando a edificar sem nós a sua torre de Babel, os homens hão de chegar a antropofagia. Mas então a besta nos há de procurar, de rojo pelo chão, lamber-nos-á os pés, e se banhará com lágrimas de sangue. E nós nos sentaremos no dorso da besta, e elevaremos a taça que terá a inscrição: "Mistério". E então se estabelecerá sobre a Terra o reino da paz e da felicidade. Tu tens orgulho pelos Teus eleitos, mas eles são apenas eleitos; enquanto nós, daremos a paz a todos. E aliás, quantos desses eleitos, quantos dos fortes que poderiam ser eleitos, cansados de Te esperar, já levaram e levarão ainda para outra parte as forças do seu espírito e a chama do seu coração, e acabam por erguer contra Ti o estandarte da liberdade? Mas foste Tu que o ergueste. E conosco, todos serão felizes; os homens não mais se hão de revoltar, deixarão de se destruir mutuamente, como o faziam no reino da Tua liberdade. Oh! conseguiremos convencê-los de que não serão realmente livres senão quando renunciarem à sua liberdade e se submeterem a nós. E que importa que digamos a verdade ou mintamos? Eles próprios se convencerão de que falamos a verdade, por que se hão de lembrar dos horrores da escravidão e desespero a que levou a Tua liberdade. A liberdade, o livre pensamento e a ciência os hão de extraviar em tais florestas, hão de pô-los frente a tantos mistérios e tantos prodígios que uns, revoltados e loucos de ira, se destruirão a si próprios, e outros, desgraçados e débeis, virão de rojo a nossos pés, exclamando: "Sim, tendes razão, só vós possuis o Seu segredo, e para vós tornamos. Salvai-nos de nós próprios!" E recebendo o pão de nossas mãos, verão decerto, claramente, que tomamos o pão produzido pelo seu próprio trabalho, para o distribuir sem nenhum milagre; verão que não transformamos pedra em pães; mas na verdade o que os tornará felizes, não será propriamente o pão em si, mas o fato de o receberem de nossas mãos. Porque hão de recordar bem demais, que antes, sem nós, os pães que eles produziam transformavam se em pedras nas suas mãos, e que, depois de entregues a nós, aquelas mesmas pedras se transformavam em pães. E compreenderão então a vantagem que lhes representará submeterem-se para sempre. E enquanto os homens não o compreenderem, serão desgraçados. E quem mais contribuiu para essa incompreensão, dize? Quem dispersou o rebanho e deixou que ele se extraviasse por caminhos desconhecidos? Mas o rebanho se reunirá de novo, e se submeterá - definitivamente, dessa vez. E então nós lhe daremos uma felicidade suave e humilde, - a felicidade dos entes fracos, tais como eles o são. Oh! haveremos de os persuadir afinal a não serem mais soberbos, - porque tu os elevaste e lhes ensinaste o orgulho. Provar-lhe-emos que são fracos, que são apenas míseras crianças, mas que a felicidade da infância é a mais doce de todas. Tornar-se-ão tímidos, e hão de nos olhar e se agrupar ao nosso redor como os pintainhos em torno da mãe. Hão de nos admirar e temer, e terão orgulho do nosso poderio e da nossa inteligência, que nos permitiu dominar o seu rebanho inumerável e furioso. Tremerão ante a nossa cólera; sua inteligência ficará tímida, seus olhos choraram tão facilmente quanto os olhos das crianças e das mulheres, mas a um simples olhar nosso passaram com a mesma facilidade ao prazer e ao riso, à alegria luminosa e às cantigas pueris. Serão decerto obrigados a trabalhar, mas nas horas de folgas lhes organizaremos a existência como brinquedos de criança, com coros e danças cândidas. Terão permissão de pecar: são entes fracos e sem vontade; e nos hão de amar como crianças, porque os autorizamos a pecar. Dir-lhe-emos que todo pecado cometido com nossa vênia será resgatado, e que lhes permitimos pecar porque os amamos; e quanto à punição dos pecados, tomamo-la sobre os nossos ombros. E eles nos hão de adorar como benfeitores, porque teremos assumido, perante Deus, a responsabilidade dos seus erros. Não terão nenhum segredo para nós. Conforme sua obediência for mais ou menos completa, terão licença nossa para viver com suas mulheres e suas amantes, ter ou não ter filhos, e hão de se submeter com alegria. Hão de nos entregar os mais terríveis segredos das suas consciências, tudo o que os atormenta, e nós lhes solucionaremos todas as angústias, e eles terão confiança e nossas decisões, porque assim os libertaremos dos pesados cuidados e dos sofrimentos que comporta qualquer decisão livre ou pessoal. E todos serão felizes, todos os milhões de seres humanos, salvo as centenas de milhares que os dirigirem - só nós seremos infelizes. Haverá milhares de milhões de crianças felizes, e cem mil mártires sobrecarregados com a maldição decorrente do conhecimento do bem e do mal. Morrerão os primeiros docemente; finar-se-ão suavemente, em Teu nome, e, para além do túmulo, não encontrarão senão a morte. Mas nós haveremos de guardar o segredo, e para a felicidade deles, seduzi-los-emos com a promessa da eterna ventura celestial. Se deverá realmente haver qualquer coisa no outro mundo, para entes iguais a eles. Dizem as profecias que Tu tornarás a vir e de novo vencerás, que dessa vez voltarás com os Teus eleitos, poderosos e altivos; mas nós diremos que esses se salvaram a si próprios, enquanto nós salvamos a humanidade inteira. Profetizam que será abatida a meretriz montada na besta, a qual trás na mão a taça onde está escrita a palavra "Mistério", que os fracos se revoltarão de novo, que eles rasgaram a púrpura da meretriz e hão de despir o seu corpo "impuro". Mas então eu é que me hei de erguer, e Te apontarei os milhares de milhões de crianças felizes que não conheceram o pecado. E nós que, para a felicidade deles, tomamos sobre os nossos ombros o peso de seus pecados, nós nos levantaremos diante de Ti, gritando: "Julga-nos, se o podes, se o ousas!" Fica sabendo que eu não Te temo, que eu também estive no deserto, que eu também me alimentei de raízes e gafanhotos, que eu abençoava a liberdade que Tu entregaste como um dom aos homens, que me preparava para tomar um lugar entre os Teus eleitos, entre os fortes que aspiram "completar o número". Afastei-me, reuni-me àqueles que "corrigiram a Tua obra". Deixei os orgulhosos e procurei os humildes, para a felicidade dos mortais. O que Te digo se há de realizar e o nosso reino se há de constituir. E, repito-o: amanhã verás esse rebanho obediente precipitar-se ao meu primeiro gesto para atirar lenha à fogueira onde Te mandarei arder, porque nos vieste perturbar. Porque se há alguém que, mais que nenhum outro, tenha merecido a fogueira, esse alguém és Tu. Amanhã, pois, serás queimado. "Dixi".
Ivan calou-se. Exaltara-se, falando, e terminou muito animado; mas quando acabou, sorriu.
Alioscha, que o escutava em silêncio, comovidíssimo, e em muitas ocasiões fizera esforços evidentes para não interromper o irmão, não se pode mais conter:
- Mas... isso é um absurdo! Exclamou rubro. Escreveste um poema em louvor de Jesus e não um blasfêmia contra Ele... como o desejavas. E quem dará crédito ao que dizes a respeito da liberdade? Será assim que a devemos compreender? Será assim que a compreende a Igreja ortodoxa? Isso é aplicável apenas a Roma, e a verdade é que nem a toda Roma... Sei que o que há de pior no catolicismo é a inquisição, os jesuítas. E ademais, um personagem tão fantástico quanto o teu inquisidor é inteiramente impossível. De que pecados humanos se sobrecarregou ele? Quais são esses detentores do mistério que assumiram não sei que maldição para a felicidade dos homens? Onde foram vistos? Nós conhecemos os jesuítas; falou-se mal deles; mas serão tais como os pintas? Mas se o são, não o são absolutamente... Eles representam simplesmente o exército romano que trabalha para o estabelecimento de um império terrestre, com um imperador, o pontífice romano, à frente.... É esse o seu ideal, sem nenhum mistério, sem nenhuma tristeza sublime. Não têm senão a sede do poder, dos abjetos bens terrenos, da escravidão... Uma espécie de organização de servos, em que eles desempenhariam o papel de senhores feudais... É a isso apenas que aspiram. Talvez nem sequer acreditem em Deus. Teu inquisidor sofre... é uma fantasia...
- Para, para! Interrompeu-o, rindo, Ivan. - Como te exaltas! Dizes que é apenas uma fantasia. Muito bem; mas dá licença: acreditas sinceramente que todo o movimento católico destes últimos séculos se reduza apenas a uma sede de domínio, visando os míseros bens terrenos? Será que o padre Paissi te ensinou isso?
- Oh! Não, ao contrário; o padre Paissi já me disse um vez coisas muito parecidas com essas que me disseste... mas absolutamente não é assim, tornou Alioscha.
- Eis uma informação preciosa, apesar da restrição "absolutamente não é assim". Quero, porém, que me respondas a esta pergunta precisa: por que pensas que os jesuítas e os inquisidores só agiram visando os bens materiais? Por que deixar de admitir que houve entre eles ao menos um único homem que amasse a humanidade e sofresse com seus sofrimentos? Supõe que entre todos que tinham sede apenas dos bens materiais, houvesse um, um único, igual ao meu velho Inquisidor, que também se houvesse alimentado de raízes no deserto, que também houvesse lutado como um demente contra a sua própria carne, para se fazer livre e perfeito. Durante toda a vida amou a humanidade, mas de repente abre os olhos, vê quão medíocre é a alegria moral de atingir a liberdade perfeita, vendo ao mesmo tempo que a salvação dos demais milhões de criaturas de Deus é apenas um escárnio, porque elas jamais serão capazes de usar a sua própria liberdade, porque esses débeis rebeldes não terão nunca a força de gigante necessária a dar remate à torra, - que não fora para aqueles gansos que o grande idealista sonhara a sua harmonia. Compreendendo tudo isso, volta atrás e reúne-se... aos inteligentes. Seria realmente inadmissível?
- A quem se reúne ele? A que pessoas inteligentes? Exclamou Alioscha, quase em desespero. Mas eles não são inteligentes, não possuem nenhum mistério, nenhum segredo... São simplesmente ateus, - é esse o seu segredo. Teu Inquisidor não acredita em Deus: e esse é o seu segredo!
- E mesmo que assim o fosse! Por fim adivinhaste. É exatamente isso - é esse todo o seu segredo. E por acaso tal segredo não representa um sofrimento para o homem que sacrificou a vida ao ideal do deserto e não se pôde curar do seu amor pelos homens? No ocaso da vida, vê que apenas os conselhos do espírito terrível e poderoso teriam podido organizar numa ordem tolerável a vida daqueles fracos rebeldes, daqueles entes inacabados, abortados, criados por irrisão. Abrindo os olhos, compreende que é mister seguir as indicações do espírito maligno, do terrível espírito de morte e destruição, e para esse fim aceitar a mentira e a fraude, e conduzir conscientemente os homens para a morte e o nada, enganando-os durante a jornada. E repara bem, a mentira é cometida em nome dAquele em cujo Ideal o velho ardentemente acreditou, durante toda a sua vida. Não é uma desgraça? E se, à frente daquele exército, que "aspira ao domínio do mundo, visando tão-só os bens materiais", se encontrar um único indivíduo assim - não bastará isso para criar a tragédia? E ainda há mais: basta um único homem igual ao meu para que a obra de Roma, com o seu exército de inquisidores e jesuítas, encontre afinal a sua idéia diretriz, sua idéia suprema. Digo-te com franqueza: estou certo de que entre os que estão à frente do movimento, sempre houve homens desse tipo. Talvez mesmo tenha havido deles entre os pontífices romanos. Quem sabe? Aquele maldito velho que à sua maneira ama tão obstinadamente a humanidade, talvez exista, atualmente; talvez exista um acordo, uma liga secreta fundada já há algum tempo, para guardar o mistério, para escondê-lo aos fracos, aos miseráveis - e troná-los afinal felizes. Com toda a certeza é assim - só pode ser assim. Creio também que a maçonaria há de ter um segredo análogo, e é por isso que os católicos a odeiam com tanta intensidade; vêem nos maçons concorrentes que destroem a sua idéia de unidade; e não deve haver senão um único rebanho e um único pastor... Mas, defendendo a minha idéia, assumo o aspecto de um autor que não tolera crítica. Vou parar com isso.
- Quem sabe se tu também não és maçom! Deixou de repente escapar Alioscha. Tu não acreditas em Deus, acrescentou o moço, com profunda tristeza. - parecia-lhe subitamente que o irmão o fitava com escárnio.. - Como acaba o teu poema? Indagou, de olhos baixos.
- Eu o queria terminar assim: o Inquisidor se cala, e espera um momento a resposta do Prisioneiro; o Seu silêncio lhe é penoso. Vira bem que o Prisioneiro o escutara sem deixar de o fitar com um olhar meigo e penetrante, sem querer dar resposta. E o velho gostaria que Ele lhe dissesse qualquer coisa, fossem embora palavras amargas, terríveis. Mas o Prisioneiro repentinamente se aproxima do velho, e lha beija os lábios exangues. É essa a Sua única resposta. O velho estremece; qualquer coisa se agita nas comissuras daqueles lábios que Ele beijou; depois o Inquisidor se dirige à porta, abre-a, e Lhe diz: "Vai e não voltes mais. Nunca, nunca mais!" Solta-o na cidade "cálida e escura"; e o Prisioneiro desaparece.
- E o velho?
- O beijo do Prisioneiro lhe queima o coração, mas continua aferrado à sua idéia.
- E tu estás com ele, não é verdade? Perguntou Alioscha, desesperado.
Ivan pôs-se a rir.
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