O Jogador
O escritor russo Fiodor Dostoievski conheceu duas paixões. Apolinária (Paulina) Suslova e o jogo. Por causa desses dois amores viveu no paraíso e no inferno. "O Jogador" foi escrito nessa época, espelhando sua prisão às roletas. "Em tudo e por tudo vou até o último limite", reconheceu.
O narrador da história é Alexis Ivanovitch, que trabalha como preceptor para a família de um general russo na cidade alemã de Roulettenburg. Seu sonho é quebrar a banca do cassino assim que tiver dinheiro para apostar. Mas enquanto isso tem que conviver com a estranha comitiva do general: sua irmã Maria Felipovna, sua cunhada Paulina Alexandrovna, a cortesã senhorita de Cominges, e sua mãe, de Des Grieux e de Mr. Astley, sem contar as crianças.
"Pelo que diz respeito a adquirir e a ganhar não fazem os homens outra coisa, não só na roleta como em toda parte, do que tirarem e lucrarem-se algo reciprocamente. Outra questão é saber se a aquisição e o proveito são algo feio. (...) Há duas espécies de jogo nitidamente diferentes: o dos gentis homens e o da plebe. Há quem os distingua com muita severidade. Todavia, a falar a verdade, que tolice tal distinção! Um gentil homem pode, por exemplo, arriscar cinco ou dez luízes, raras vezes mais. Pode também arriscar mil francos, se é muito rico, mais só por causa do jogo propriamente dito, para se divertir, para estudar o processo do ganho e da perda. Mas não deve, de modo nenhum, interessar-se pelo ganho como tal. Depois de ganhar, pode ele, por exemplo, dar uma boa gargalhada, ou dizer uma piada a um dos circunstantes. Pode mesmo tornar a jogar essa quantia toda, duplicá-la, mas unicamente por curiosidade, para ver os lances da sorte, para fazer combinações, e nunca movido pelo desejo plebeu de tirar proveito disso. Numa palavra, ele não deve ver no salão de jogo, nas roletas e 'Trente-et-quarente' mais do que um simples divertimento. Nem sequer deve suspeitar das possibilidades de ganho e das armadilhas em que se baseia a banca. Não seria mau se, por exemplo, lhe sucedesse que todos os outros jogadores, a plebe, que treme por cada florim, fossem igualmente ricos e jogassem unicamente para seu divertimento. Essa ignorância completa da realidade e da concepção ingênua do homem podem, sem dúvida, ter efeito altamente aristocrático."
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