O Jogador

      O escritor russo Fiodor Dostoievski conheceu duas paixões. Apolinária (Paulina) Suslova e o jogo. Por causa desses dois amores viveu no paraíso e no inferno. "O Jogador" foi escrito nessa época, espelhando sua prisão às roletas. "Em tudo e por tudo vou até o último limite", reconheceu.
      "Os Irmãos Karamazov", "O Idiota", "Crime e Castigo" foram nutridos pela mesma vida sombria de Dostoievski. O escritor esteve próximo de ser fuzilado, por suas ligações com grupo de revolucionários. No momento da execução, em 1847, soube que sua pena havia sido substituída por trabalhos forçados.
      Durante os quatro anos em que esteve na Sibéria, Dostoievski se entrega mais ao jogo. "Desde que, na véspera, me aproximei do pano verde e comecei a reunir pacotes de notas, meu amor passou para segundo plano... Será que sou jogador?"
      Ele estava endividado e separado de Paulina, quando inicia o livro "O Jogador" em 1865. Precisava de uma estenógrafa para terminá-lo mais rapidamente, e assim conhece Ana Snitkina, que seria sua segunda mulher.
      Mas Dostoievski continua a jogar. Até que, de súbito, escreve à sua esposa: "Uma grande obra amadureceu em mim: esta fantasia imunda que me torturou durante dez anos desapareceu... Agora está tudo acabado. É verdadeiramente a última vez." E nunca mais jogou.

Enredo do Livro

      O narrador da história é Alexis Ivanovitch, que trabalha como preceptor para a família de um general russo na cidade alemã de Roulettenburg. Seu sonho é quebrar a banca do cassino assim que tiver dinheiro para apostar. Mas enquanto isso tem que conviver com a estranha comitiva do general: sua irmã Maria Felipovna, sua cunhada Paulina Alexandrovna, a cortesã senhorita de Cominges, e sua mãe, de Des Grieux e de Mr. Astley, sem contar as crianças.
       O general, apesar de toda a posse, passa por difíceis momentos financeiros, mas espera receber a notícia de que sua avó morreu em Moscou para poder receber a herança. Baseado nesta esperança, ele pediu a senhorita de Cominges em casamento, mas esta espera ver a cor do dinheiro para aceder. Des Grieux, um francesinho extravagante, que tratava a todos com desdém e sem cerimônia, espera que o general receba sua herança e possa finalmente pagar o que lhe deve. Mr. Astley é um inglesinho tímido, mas de trato doce e agradável. Paulina é uma linda jovem, que encanta o coração de Des Grieux, Mr. Astley e do protagonista que, devido a sua posição, suporta a arrogância de todos e oferece até a vida em troca deste amor, mas a única coisa que Paulina pede é que ele ganhe dinheiro para ela no cassino, enquanto as notícias sobre a avó não chegam.

Trecho do Livro

      "Pelo que diz respeito a adquirir e a ganhar não fazem os homens outra coisa, não só na roleta como em toda parte, do que tirarem e lucrarem-se algo reciprocamente. Outra questão é saber se a aquisição e o proveito são algo feio. (...) Há duas espécies de jogo nitidamente diferentes: o dos gentis homens e o da plebe. Há quem os distingua com muita severidade. Todavia, a falar a verdade, que tolice tal distinção! Um gentil homem pode, por exemplo, arriscar cinco ou dez luízes, raras vezes mais. Pode também arriscar mil francos, se é muito rico, mais só por causa do jogo propriamente dito, para se divertir, para estudar o processo do ganho e da perda. Mas não deve, de modo nenhum, interessar-se pelo ganho como tal. Depois de ganhar, pode ele, por exemplo, dar uma boa gargalhada, ou dizer uma piada a um dos circunstantes. Pode mesmo tornar a jogar essa quantia toda, duplicá-la, mas unicamente por curiosidade, para ver os lances da sorte, para fazer combinações, e nunca movido pelo desejo plebeu de tirar proveito disso. Numa palavra, ele não deve ver no salão de jogo, nas roletas e 'Trente-et-quarente' mais do que um simples divertimento. Nem sequer deve suspeitar das possibilidades de ganho e das armadilhas em que se baseia a banca. Não seria mau se, por exemplo, lhe sucedesse que todos os outros jogadores, a plebe, que treme por cada florim, fossem igualmente ricos e jogassem unicamente para seu divertimento. Essa ignorância completa da realidade e da concepção ingênua do homem podem, sem dúvida, ter efeito altamente aristocrático."