Os Irmãos Karamázovi
Em sua última obra, publicada em 1879-80, se vêem objetivadas as idéias políticas, éticas e sociais do autor.
A agudeza dos confrontamentos, das idéias e tendências, as quais refletem as dúvidas e contradições de Dostoievski, fazem desta sua última obra uma espécie de disputa ideológica.
Considerada como uma das grandes obras mestras da literatura universal, constitui a expressão artística mais poderosa da habilidade de Dostoievski para traduzir em palavras suas análises psicológiaos e seus pontos de vista filosóficos.
No exemplo do destino de uma família pertencente à nobreza, o autor descobre um ímpio e trágico quadro da sociedade de seu tempo, desmascara as monstruosas e depravadas relações entre as pessoas, suas enfermas e corrompidas almas pelas circuntâncias do poder do dinheiro, a incontível manifestação das bárbaras e bestiais paixões, do egoísmo e da ignonímia espiritual.
O argumento da obra se organiza em torno da máxima expressão da tensão interna, baseando-se assim na brusca contraposição de pessoas e acontecimentos.
A profunda significação intelectual e espiritual desta novela vai se revelando através do enfrentamento entre os três irmãos, o intelectual ascético, Ivan, o passional homem de ação, Dmitri e o bondoso noviço de um monastério, Aliosha. Estes três protagonistas, símbolos metafísicos do corpo, mente e espírito, que habitam o homem contemporrâneo, leva a cabo um prolongado e apaixonado debate sobre os temas que preocupavam o autor em sua juventude: a expiação do pecados através do sofrimento, a necessidade de uma força moral neste universo racional, a luta entre o bem e o mal, o valor supremo da liberdade e do indivíduo. e a mais importante de todas as perguntas, e a de que só se tem dados respostas parciais: como deve viver um ser humano e para quem tem que fazê-lo. A criação simbólica de mundos em que os heróis trespassados pelo caráter trágico da vida buscam a verdade e a autorealização conforma a característica mais destacada das últimas obras de Dostoievski, que as converte em obras universais e intemporais. Através delas, o escritor se antecipou à psicologia moderna, ao explorar os motivos ocultos e chegar a compreender de um modo intuitivo o funcionamento do inconsciente, que se manifesta claramente nas condutas irracionais, o caminho, o sofrimento psíquico, os sonhos e os momentos de desequilíbrio mental de seus personagens. Preparou, assim mesmo, o caminho para as aproximações psicológicas levadas a cabo pela literatura do século vinte e pelos escritores do surrealismo e o existencialismo.
A grande realização de Dostoievski à literatura universal consistiu em dar um novo enfoque a novela, segundo a qual o narrador já não está fora da obra relatando os acontecimentos, mais ou menos alheio a eles, senão que sua presença se manifesta com voz própria, como se de outro personagem se tratasse. Exemplos significativos da adoção deste modo de narrar podem ser observado en André Gide, Thomas Mann, Miguel de Unamuno, Jean Paul Sartre e no argentino Robert Arlt.
Em Fiódor Pávlovich - o pai dos Karamázovi - encontramos um caráter amplamente generalizador e de enorme força acusatória, reunindo todo o sujo, corrompido, trivial, e inumano em circuntâncias de poder do dinheiro. O conflito familiar, o ódio dos filhos fazem um pai depravado e déspota adquirir na novela um caráter social, mostra a decomposição dos velhos princípios patriarcais e as relações familiares sob a influência das novas relações burguesas, que vão minando o sistema obsoleto. A própria luta contra este sistema é deforme e inumana, justificando moralmente o parricídio e a violência irrefreável.
Em Ivan Karamázovi encontramos uma natureza complicada e contraditória. Chega a negar ateisticamente a religião, se subleva contra a inevitabilidade dos sofrimentos humanos. Ao mesmo tempo, trata de alcançar a felicidade na vida, de conseguir sua força vivificante e não pode suportar os padecimentos da humanidade. Afirma que não cabe, sob nenhum preço, redimir nem justificar o injusto dos sofrimentos que experimentam os homens. Porém considera que se é impossível conseguir uma harmonia geral, se "as lágrimas do menino são inevitáveis" resulta natural a negação do próprio mundo e a conclusão lógica de que tudo é permitido.
Aliosha Karamázovi representa a imagem de herói positivo, a imagem do indivíduo harmonicamente perfeito. Em sua pessoa se mostra o humanitarismo, o verdadeiro amor ao próximo.
Duas passagens que mostram a profundidade da escrita de Dostoievski são O Grande Inquisidor, em que Ivan narra suas idéias filosóficas para seu irmão Alioscha através de uma pequena história; e A Doutrina de Zossima, em que Zossima, monje que é o mentor do espiritual Alioscha, está a beira da morte e faz um delirante resumo de como descobriu sua vocação.