Fiodor Mikhailovitch Dostoiévski Gênio do mal, segundo Máximo Górki. Perigoso, segundo Stálin. Até 1953. O currículo soviético para estudos universitários sobre o escritor o classificava como "expressão da ideologia reacionária burguesa individualista". Segundo ele mesmo, seu mal era uma doença chamada consciência.O inverno se aproxima de Moscou a passos de neve. Estamos a 30 de novembro de 1821. No hospital Maria, destinado aos pobres da cidade, Maria Feodórovna Netchaiev ouve os primeiros gritos de seu segundo filho - Fiodor Mikhailovitch Dostoievski - cujo destino nem a mãe nem o pai - o doutor Mikhail Andrévitch Dostoievski - seriam capazes de adivinhar naquele momento de angústias e esperanças. Nesse mesmo hospital, onde trabalhava o doutor Mikhail Andrévitch, um aristocrata decadente, passou Dostoievski os primeiros anos de infância - triste e sombria infância ao lado do pai severíssimo e da mãe doentia e melancólica - ouvindo, ao lado do irmão mais velho, as histórias contadas pela ama Aliona Feodórovna ou contemplando as estampas da grande Bíblia da família. Nesse ambiente pesado e tristonho viveu Dostoievski até 1831, quando o doutor Andrévitch, satisfazendo seu velho sonho, adquire a propriedade rural de Davoroie, a cento e cinqüenta quilômetros de Moscou. No campo, tudo renasce para Dostoiévski e o irmão mais velho. Descobrem a natureza e se aproximam dos camponeses. São felizes, em suma, principalmente quando distantes da severidade paterna que, se não chega ao castigo físico, chega entretanto à secura moral, à aspereza, à ausência de calor humano.Mas se a vida rural tantas horas de prazer proporciona à Dostoievski, bem depressa lhe impuseram, a título de equilíbrio, os deveres escolares. A princípio, com doze anos, estudou com um tal Souchard, francês russificado, aprendendo aritmética, gramática e a língua de Racine. Pouco depois, no outono de 1834, ingressaram Dostoievski e o irmão no liceu Tchermak, em Moscou. Nessa escola para meninos nobres, Dostoievski começa a sentir os primeiros entusiasmos pela literatura, dedicando-se com especial carinho à leitura das grandes obras russas, datando dessa época o seu culto nunca desmentido a Puschkin. Mas esse período feliz e tranqüilo não dura muito tempo. A 27 de fevereiro de 1837 faleceu Maria Feodórovna, mãe de Dostoievski, e esse acontecimento deixou marcas inapagáveis no espírito do menino e do adulto, que entre o pai e a mãe dedicava especial carinho a esta. No ano seguinte, a 16 de janeiro, Dostoievski ingressa na Escola de Engenharia Militar de Petersburgo, de onde sai em 1843 como subtenente, para renunciar pouco depois à carreira das armas. Outra morte, entretanto ocorrera na família. A 8 de junho de 1839 falecera o doutor Mikhail Andrévitch, pai de Dostoievski, sempre distante dos filhos, sempre áspero e impassível no seu orgulho, na sua avareza e no seu egoísmo. Para Dostoievski, a morte do pai foi uma espécie de libertação, ao passo que a imagem materna cada vez mais se aprofundava em seu espírito. A partir de então, Dostoievski está sozinho. Nenhum laço materno ou paterno, nenhuma outra interferência em sua vida e em seu destino de escritor prestes a cumprir-se, salvo a grande amizade que dedicava ao irmão mais velho, que também lhe era profundamente afeiçoado. O futuro romancista está agora diante de si mesmo e de uma vocação literária quase a realizar-se. Nessa época, por sinal, Balzac visita Petersburgo e o acontecimento deixa Dostoievski entusiasmado. Resolve, então, traduzir Eugenia Grandet, que fez publicar em 1844, no diário Repertório e Panteon. No ano seguinte, 1845, começa a escrever seu primeiro romance, Os Pobres Diabos, que ainda em manuscrito merece os louvores entusiasmado de Bielinski, o grande crítico da época, e de Nekrasov, diretor do Contemporaneo, revista literária. Estimulado por esses elogios, Dostoievski publica Os Pobres Diabos no Almanaque Petersburguês em 1846. A partir dessa data sua carreira literária está iniciada. O Sósia, onde já se revelam a preocupação do escritor com o sofrimento do homem socialmente degradado e a pesquisa psicológica que distingue toda a sua obra. A Senhoria, Nietotchka, são obras que escreve e publica entre 1846 e 1849. Em 1847, porém Dostoievski começara a freqüentar as reuniões de Petraschevski, um revolucionário, tornando-se assim suspeito às autoridades como perigoso conspirador, ligando-se inclusive estreitamente a Spechnev, o membro mais famoso e audaz de todo o grupo. A Rússia de então era um imenso império que resistira às mudanças ocorridas na Europa depois da Revolução Industrial (1780) e da Revolução Francesa (1789). Nas cidades a burocracia e a corrupção alimentavam milhares de funcionários com o dinheiro proveniente dos pesados impostos. No campo a miséria atingia a maioria esmagadora da população - os servos. Em 1848, um movimento conhecido como "Primavera dos Povos", que tinha por fim a emancipação do camponês e a liberdade de expressão, atravessou a Europa em ondas de revoluções sociais e, desta vez ao menos, as idéias liberais penetraram as fronteiras russas, contagiando a elite intelectual. No ano seguinte Dostoievski, já uma figura importante no meio literário de São Petersburgo. No entanto, apesar das aparências em contrário, o círculo de Petraschevski não passava de um amontoado de cabeças quentes porém líricas, homens que falavam muito e agiam menos. A polícia tzarista, porém, assim não pensava e Dostoievski, juntamente com os demais pretensos conspiradores, foi preso a 23 de abril de 1849. Submetido a julgamento a 16 de novembro do mesmo ano, Dostoievski é condenado a morrer diante de um pelotão de fuzilamento, pena essa que Nicolau I, com sua paternal benevolência, transforma em quatro anos de trabalhos forçados na Sibéria. Ocorre, então, nessa oportunidade (22 de dezembro), um dos episódios culminantes da vida de Dostoievski, pela dramaticidade que o cerca e pelas repercussões que poderia ter na alma do escritor. Para os condenados ao fuzilamento, tal pena ficou valendo até o derradeiro instante, quando já se encontravam diante dos soldados em posição de atirar. Porque foi só nesse momento, que as autoridades, com humorismo meio sádico, fizeram saber aos condenados qual fora a verdadeira decisão do imperador. A 23 de janeiro de 1850, em Omsk, a Sibéria acolhe Dostoievski. O que se poderia dizer a respeito desse período de quatro anos de trabalhos forçados, que se abre para Dostoievski, melhor do que ninguém o próprio romancista soube fazê-lo nas páginas magistrais de Recordações da Casa dos Mortos, livro em que narra sua experiência de presidiário. Livre dos trabalhos forçados a 16 de fevereiro de 1854, aproximadamente, Dostoievski fica ainda por alguns anos na Sibéria, onde enfim acaba se apaixonando e casando com Maria Dmitrievna Issaiev (nascida Constant), viúva e mulher caprichosa e difícil, a 6 de fevereiro de 1857. Dois anos depois, em dezembro de 1859, Dostoievski retorna a Petersburgo e começou uma existência nova: afirmou-se patriota, ortodoxo, combateu o niilismo, fundou uma escola eslavófila e preconizou para a Rússia um desenvolvimento absolutamente diferente do da civilização européia. Finalmente preconizou a idéia de regeneração do mundo pelo cristianismo. No ano seguinte, em setembro, o Mundo Russo começa a publicação de Recordações da Casa dos Mortos. Em 1861, publica Dostoievski o romance Humilhados e Ofendidos, e no Mundo Russo, primeiro, e depois em Vremya (Tiempo), a revista que ele mesmo fundou en 1861 em colaboração com seu irmão Mijáil, continua fazendo aparecer as Recordações da Casa dos Mortos. Quando a revista foi encerrada, por um artigo supostamente subversivo que foi publicado nela, os dois irmãos embarcaram, em 1864, no projeto de Época (Epoja) outra revista de curta vida. Estava assim Dostoievski, depois da terrível experiência na Sibéria, começando a segunda fase de sua carreira literária, a mais fecunda, a mais brilhante, a mais genial sem dúvida alguma. Da generosa compreensão com que encarava as misérias humanas, Dostoievski extraiu seus personagens - quase sempre criaturas marginalizadas submetidas a situações extremas. Escreve um de seus biógrafos: "As desventuras de sua vida, a epilepsia e a estada nas prisões, tiveram perniciosa influência sobre sua atividade literária, tornando-se doentio o seu talento e transformando-se as tendências democráticas da sua juventude em um misticismo extremo. Mas o casamento com Maria Dmitrievna acaba levando o escritor a um verdadeiro inferno. Maria, caprichosa, doente, sempre insatisfeita e não dedicando ao marido verdadeira amizade (o primeiro ataque epiléptico na sua presença, ainda na Sibéria, deixara-a com rancor e medo), não tarda a obrigá-lo a viajar como único recurso de fuga, apesar do sincero amor que Dostoievski lhe dedica. Em 1862, portanto, o romancista vai à Paris, Londres, Suíça, Itália, regressando à Petersburgo em agosto, quando então conhece Pólina Suslova, estudante da Universidade, que viria a ser o seu caso amoroso mais profundo e de maiores conseqüências para a sua arte de escritor. No ano seguinte, nova viagem de Dostoievski ao ocidente, desta vez em companhia de Suslova, que o espera em Paris. Nessa viagem, Dostoievski experimenta pela primeira vez, com intensidade, a paixão do jogo, ganhando cinco mil francos em Wiesbaden, para perder mais tarde quantias ainda maiores até regressar à pátria. Em 1864, a 15 de abril, morre enfim Maria Dmitrievna, primeira esposa do romancista, cuja lenta agonia foi o dramático desfecho de uma vida falhada e marcada pelo sofrimento. Mais umano decorrido, e Dostoievski resolve novamente visitar o estrangeiro, onde enfim termina definitivamente seu romance de amor com a bela Suslova, que tanto o atormentara com a sua inconstância e fraqueza. No entanto, apesar dessa constante agitação, perseguido pelos credores, completamente desprovido de recursos, solicitados pela paixão do jogo e pelos amores ocasionais, Dostoievski não deixa de escrever. E 1866 publica Crime e Castigo, no Mensageiro Russo, e em outubro do mesmo ano, forçado pelo editor Stellowski, com quem assinara um contrato ruinoso, por necessidades prementes de dinheiro, escreve em menos de um mês o romance Um Jogador, profundamente autobiográfico, ditando-o a Ana Grigorievna Snitkina, com quem se casou afinal em 15 de fevereiro de 1867. Após o casamento Dostoievski empreende nova viagem ao estrangeiro e em setembro começa a trabalhar no Idiota, que apareceu no ano seguinte no Mensageiro Russo. Começara então, depois do casamento do Ana Grigorievna, um período menos agitado na vida de Dostoievski, que encontra na segunda esposa uma companheira dedicada, leal e corajosa, que o estimula e ampara como escritor e como homem. Mulher de espírito forte, suporta o romancista com seu corpo doente de epiléptico, com a sua psicologia especial, com o seu vício de jogador e também com a sua glória de gênio literário. Por isso, Dostoievski sente em torno de si um novo ambiente e se deixa guiar pela esposa como até então nenhuma mulher o fizera. Não pode vê-la longe de si, apega-se a ela como a um regaço materno sempre amigo e acolhedor, e nisso ainda agia a lembrança esquecida de Maria Feodórovna Netchaiev. Mas estamos agora em 1870, ano da publicação de O Eterno Marido, que aparece na revista Aurora, seguindo-se em 1871 Os Demônios, no Mensageiro Russo, o Diário de um Escritor em 1873, em O Cidadão, O Adolescente, nos Anais Pátrios, em 1875. Em 1879, no Mensageiro Russo, aparece então Os Irmãos Karamázovi, sua obra principal e fecho de uma gloriosa jornada através de 34 anos de atividade literária. Sua missão estava cumprida, seu pedestal para o tempo estava pronto e se apresentava indestrutível como a rocha. Certo ele ainda alimentava projetos - A Vida de um Grande Pecador, por exemplo, romance que daria sentido final à sua obra, síntese de seu pensamento, mas que ficou incompleto e do qual Os Irmãos Karamázovi fazem parte. Mas o fim está próximo agora, embora o romancista trabalhe sempre e ainda espere viver mais vinte anos escrevendo e lutando. O inverno cobre Petersburgo com seus passos de neve, e com ele uma sombra maior e mais gélida ainda, um frio que será eterno, desce mansamente sobre Fiodor Mikhailovitch Dostoievski, às oito horas e trinta minutos da noite de 28 de janeiro de 1881. Os seus funerais foram grandiosos para um simples escritor. Um decreto conferiu a pensão de 5.000 rublos à sua viúva e ordenou que os seus quatro filhos fossem educados à custa do tesouro nacional. Seu biógrafo Nicholas Berdiaiev assim o considera: "A importância de Dostoievski é de tal modo grandiosa, que o simples fato dele ter nascido justifica a existência do povo russo no mundo. Ele testemunhará a favor dos seus conterrâneos no juízo final das nações." A influência de Dostoievski exercer-se-ia no romance moderno não só no sentido de uma inferiorização, mas também a construção muitas vezes caótica, desordenada, e que se prestava admiravelmente à transmissão de uma realidade alucinada, de um mundo em que o fantasmagórico anda a passo com o real, contribuiu para a subversão dos cânones clássico do romance" A atenção, dedicada a Dostoievski no Brasil nos últimos anos deve-se ao fato de que sua obra toca em problemas vitais. "O mundo russo tem características muito específicas, mas também tem outras muito próximas do brasileiro", diz. "Sua obra é marcada pelo anticapitalismo, por uma reação ao capitalismo selvagem, algo que parece tocar o leitor brasileiro hoje." Outro aspecto que contribuiu para a difusão de autores russos, na sua opinião, foi o fim do regime soviético: "Muita gente se afastou do mundo russo por conta de desilusões políticas, depois de 1945", diz, referindo-se à polarização ideológica que se inicia após o término da Segunda Guerra Mundial. "Atualmente, as possibilidades de se familiarizar com esse universo são maiores: há exposições de arte russa, há mais traduções, os livros circulam mais, principalmente depois do desenvolvimento da internet.
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