Recordações da Casa dos Mortos - 1862
A idéia de Dostoievski condenado por crime político ao mais duro degredo na Sibéria, tem levado o público pouco informado sobre o escritor a imaginá-lo um revolucionário. É o erro em que vinha incorrendo muita gente, antes da vulgarização de biografias do romancista e do incremento dos estudos dostoievskianos de alguns anos para cá no Brasil. Dostoievski nunca foi revolucionário no sentido político e social, e sua obra, nesse plano, é mesmo a de um reacionário e conformista. Somente no terreno literário, artístico ou mais propriamente psicológico, podemos considerá-lo revolucionário. Nesse terreno, Dostoievski revolucionou o conceito de romance indo de encontro com a psicologia clássica e abrindo caminho para os abismos do inconsciente, onde mergulharia, mais tarde, Freud, como um escafandro. O romancista russo iniciou a descida aos infernos a que se refere um dos biógrafos do sábio vienense.
Mas quais foram, na realidade, as circuntâncias que levaram Dostoievski à prisão? Uma injustiça, podemos dizer. O romancista nada fez que merecesse tão duro castigo - a punição tremenda infligida aos implicados na pseuso-conspiração Petraschevski. Vejamos a história. Petraschevski era um funcionário do Ministério do Interior, descontente com o regime - a tirania do tzar Nicolau I, que sempre nos aparece com as cores mais negras, embora tantos historiadores tenham procurado atenuá-la, explicando-a em face das condições especialíssimas da vida russa. O início do governo do tzar foi, como se sabe, assinalado pela insurreição dos "decembristas" - um movimento de nobres, exigindo reformas políticas e sociais. Os conspiradores pagaram a audácia na forca e no exílio. Mas o ambiente ficou carregado e o espírito do tzar terrivelmente prevenido. Aliás, o descontentamento continuou em ebulição subterrânea, principalmente entre a pequena burguesia e os intelectuais. Petraschevski era dos que achavam que havia muita coisa errada, ou antes, tudo estava errado, embora não possuísse idéia nítida e definida do que seria preciso fazer para modificar aquilo. Com menor nitidez ainda se esboçavam idéias no espírito dos intelectuais. A Europa vivia em plena efervescência romântica, em pleno sonho libertário, e por toda parte surgiam as exaltações místicas do socialismo utópico. Os intelectuais russos liam, como tanta gente, Fourier, Saint-Simon, os romances socializantes de George Sand e imaginavam maneiras de aplicar aquelas teorias na Rússia, esse mundo diferente e isolado do resto da Europa. De que maneira concretizar tais princípios numa realização prática e positiva? Era o que ninguém sabia, mesmo porque os russos ainda tinham que fazer a "revolução francesa", vencer essa grande etapa, para chegar aos ideais de Fourier e Saint-Simon. Na Rússia ainda haviam servos, como no apogeu do feudalismo, e sem a medida preliminar de abolir a servidão nada seria possível. Eis um dos problemas capitais que se discutiam em casa de Petraschevski. Discussão sem conseqüência, sem nenhum início de ação, mesmo porque os interlocutores divergiam em seus pontos de vista. O destino de Dostoievski levou-o a freqüentar essas reuniões. Como intelectual, pensava também na sorte da Santa Rússia, na miséria do povo e na arrogância dos nobres. Lera os utopistas, admirava enormemente George Sands e perdia-se em confabulações. Bastariam essas circunstâncias para fazer dele um revolucionário? Certamente não. Havia em Dostoievski o anseio de harmonia e de justiça comum a quase todos os intelectuais. Por que tanta gente gemer na escravidão? Por que tanta dor, tanta queixa? Ah! era preciso suprimir esses males! E as palavras de Cristo a ecoarem em seu coração: "Amais-vos uns aos outros". Teria isso alguma coisa com a idéia de pegar em armas, rebelar-se contra o poder, derrubar o tzar? Não. Dostoievski tem confiança no tzar e acha que do próprio soberano devem partir as medidas reformadoras. No fundo, o que o exalta é o ideal de um mundo perfeito. Temperamento nervoso, tem, entretanto, os seus instantes de arrebatamento. Impreca contra os abusos da nobreza, a intolerância do clero, fala em revolta. Não nos esqueçamos de que se trata de um epiléptico. Seria absurdo julgá-lo por essas expansões passageiras. Dostoievski está longe de ser uma das figuras principais nas reuniões de Petraschevski: há outros que falam e se excedem mais do que ele, embora tão inócuos quanto o romancista, no terreno prático. A fatalidade leva-o a distinguir entre todos, o único perigoso - o estranho Spechnev, com o qual se liga em íntima camaradagem. Spechnev é o tipo de conspirador nato: nasceu para isso e parece prelibar a volúpia do martírio. Acabará na forca, ele bem o sabe, e todos os seus passos o encaminharam, dia a dia, para esse destino inevitável. Dostoievski sofre a influência irresistível do companheiro, do anjo mau. Talvez houvesse uma intenção literária nessa aproximação. O romancista veria em Spechnev um bom tipo, um estranho exemplar humano. E a própria maneira de referir-se ao companheiro, chamando-o Mefistófeles, trai literatura.
Descontente com aquelas reuniões, onde muito se discutia, sem cuidar de agir, Spechnev pensa numa conspiração mais eficiente, para a qual seduz Dostoievski. Essa conspiração, na verdade, também não chegou a efetivar-se, mas a influência de Spechnev teria contribuído para que o romancista tomasse atitudes mais exaltadas na casa de Petraschevski.
Enquanto isso, a Terceira Secção trabalhava. Certo Antonelli, espião estipendiado pela polícia, tomava parte nas reuniões, fazendo detalhados relatórios de tudo que presenciava. Por maior que fosse o seu empenho, não conseguia reunir provas capazes de comprometer Petraschevski e os amigos. Era preciso ter paciência. Aos poucos a realidade da conspiração havia de concretizar-se. As expansões iam-se tornando cada vez mais graves. E num banquete em homenagem a Fourier, no qual, aliás, Dostoievski não tomou parte, o ímpeto subversivo do pequeno grupo atinge o limite almejado por Antonelli. O chefe de polícia Orlof alarma-se com o relatório. Aqueles jovens palradores, que pareciam inofensivos, transformam-se, de um momento para outro, em perigosos rebeldes aos olhos das autoridades. A lembrança do movimento "Decembrista" continuava bem viva no espírito de todos; urgia abafar a intentona com a maior rapidez possível. Daí o resultado já conhecido: a prisão de Petraschevski e dos companheiros, inclusive Dostoievski e o seu irmão André. O romancista estava dormindo, quando a polícia chegou, e ficou duplamente espantado, porque não contava com aquilo. Que fizera para ser preso? Conversara, discutira entre os amigos. Mas o aparato da escolta indicava a gravidade do caso. Bem depressa lhe fugiram as esperanças de que as coisas se esclarecessem rapidamente, sem maiores conseqüências. Era um conspirador perigoso e assim o tratava a polícia, encerrando-o na fortaleza Pedro e Paulo, onde deveria aguardar o desenvolvimento do processo. As acusações contra ele estavam longe, porém, de ser convincentes. Ter freqüentado reuniões onde se atacavam o absolutismo e a Igreja ortodoxa; ter assistido à leitura de uma novela dissolvente, mesmo sob o regime de Nicolau I, não bastavam para justificar uma condenação, se as autoridades não estivessem empenhadas no propósito de condenar de qualquer forma. Dostoievski é submetido a interrogatórios capciosos, fazem tudo para arrancar-lhe respostas comprometedoras e o romancista resiste de tal maneira que chega a irritar os membros da comissão de inquérito. Nega de pés firmes qualquer intuito subversivo, repele as idéias socialistas e protesta suas convicções de patriota. Não importa: era preciso condenar. E a condenação vem finalmente. Uma segunda junta de inquérito, composta de membros civis e militares, profere a mais rigorosa sentença deportação e fuzilamento. O veredicto sobe a nova instância, ficando a pena para todos reduzida a trabalhos forçados. O tzar limita a sentença de Dostoievski a quatro anos, devendo o romancista, depois, ser transferido para o exército, como simples praça de pé.
Mas a punição ainda ia revestir-se de um detalhe diabólico: os criminosos deviam ser conduzidos para o posto de fuzilamento, como se tivessem sidos condenados à morte, viria o padre, diriam a última vontade, todo o aparato sinistro da praxe, e quando houvessem experimentado, em seu indescritível horror, essa sensação terrível, ouviriam a leitura da verdadeira sentença: o tzar, na sua infinita misericórdia, transformava a pena de morte em exílio na Sibéria. A comédia foi desempenhada às maravilhas. Os condenados não duvidaram um só momento de que iriam morrer. Dostoievski esperava a morte. Como podia ser aquilo? Sentia-se forte, jovem, vinte e sete anos ardentes de vida, em perfeita saúde, a vida correndo no seu sangue e, de repente, a morte! Ah! Como não soubera defender-se melhor contra ela? Como não cuidara de apegar-se à existência? Só agora, naquele instante supremo, compreendia o que poderia fazer na vida. O mundo seria seu! Que força extraordinária e nunca pressentida lhe palpitava nas artérias! No entanto, a morte, ali a dois passos, implacável, irremovível, irremediável. Ouvia carregarem os fuzis. A morte, coisa estranha, inconcebível. Dois segundos ainda, um apenas. E o tiro não vem... Em lugar disso arrancam-lhe a venda dos olhos e o romancista, ao lado dos outros companheiros, ouve a leitura da verdadeira sentença. Depois da sensação da morte, a sensação da vida é qualquer coisa de demasiado forte para a capacidade nervosa de um ser humano. Dostoievski exultava de alegria - uma alegria histérica e quase trágica. No fundo, compreende que já é outro homem, algo de si mesmo já morreu. Agora, só lhe resta o caminho: a "Casa dos Mortos". A escolta está a postos. Na noite gelada, de um luar nevado, essas tristes noites da Rússia, os conjurados vão partir para a Sibéria.
Quatro anos num presídio perdido nas solidões das estepes, entre criminosos vulgares, condenados de toda a espécie. É o inferno. É mais do que isso, é a morte. Urgia dar testemunho ao mundo dessa dura realidade, dessa terrível experiência. E daí as Recordações da Casa dos Mortos, editadas em 1863, livro que inicia a segunda fase da obra de Dostoievski, ou antes, a sua grande fase, aquela em que atinge as fronteiras da genialidade. Logo depois de sair da prisão, inspirando-se num caso sentimental pessoal, Dostoievski escreve Humilhados e Ofendidos. O romance foi depreciado pelos críticos e o próprio autor lhe reconheceu defeitos graves, embora hoje a obra não nos pareça tão fraca assim e muita gente chegue mesmo a admirá-la sem reserva. Mas talvez Dostoievski sentisse a impossibilidade de produzir um grande romance, enquanto não contasse à humanidade o que vivera e assistira na "Casa dos Mortos". Este era um livro que precisava ser escrito quanto antes, uma espécie de catarse, de depuração. Saíra do cárcere rodeado de fantasma e tinha que libertá-los de qualquer maneira. MAis tarde, ele definiria o romancista como um indivíduo que se livra de seus fantasmas. Entretanto, como conseguir essa libertação? Escrever a obra, contando toda a verdade, não lhe seria difícil; mas deveria publicá-la, divulgar pelo mundo a verdade terrível, e aqui teria de esbarrar nas restrições rigorosas da censura tzarista. Naquela época a própria palavra Sibéria era um vocábulo tabú - diz Melchior de Vogüé. Em linguagem jurídica usava-se até de um eufemismo pitoresco para não se falar em Sibéria: o réu era condenado à deportação "em um lugar bem distante". Urgia, pois, vencer tamanha barreira por meio de um artifício, de uma transposição engenhosa. Antes de tudo, não dar ao livro o caráter de memórias e não falar em condenados políticos. Tratar-se-ia de um romance, onde as cenas, os episódios, tremendamente verídicos, podiam correr por conta da fantasia do autor. Nenhuma acusação direta; tudo transposto para o terreno do ficcionismo. a fim de tornar a situação mais romanesca - segundo a praxe de mistificações literárias muito em voga na época - Dostoievski informaria ao público de que estava apenas publicando o manuscrito de um tal Alexandr Petrovitch Goriantchikov, "ex-nobre, proprietário na Rússia, condenado por haver assassinado a mulher". Crime passional! Excelente tipo de criminoso para o caso. Goriantchikov contaria todos os orrores, como personagem de romance, tendo, apesar de tudo, o cuidado de observar que aludia a uma época bem distante. Atualmente já Não devia dar-se o mesmo. A administração decerto fora substituída. Revelava, portanto, costumes de outros tempos - esclaecia, com toda a cautela - coisas há muito abolidas. Depois a obra não evidenciaria nenhum intuito revolucionário. O autor mostrava a atrocidade do castigo, mas não o julgava injusto. Se para uns era excessiva a disciplina, havia muita gente má que a merecia. Enfim, essa pintura do cárcere em cores tão vivas devia incutir no espírito do povo maior horror ao crime. Graças a semelhante subterfúgio, o livro pôde aparecer. Um funcionário da Censura - informa-nos Troyat - ainda quis abjetar, impondo modificações no texto. A Direção Central contentou-se com a omissão de algumas expressões obcenas. A obra apareceu, alcançando, de pronto, um êxito formidável. Toda a Rússia vibrou de emoção ante aquelas páginas dantescas, pois o paralelo com o inferno de Dante se tornou inevitável.
A caminho da Sibéria, numa das etapas da jornada, Dostoievski e seus companheiros, já de cabeça raspada, recebem a visita das esposas de alguns decembristas, mulheres nobres, que abdicando o luxo e a comodidade, haviam acompanhado os maridos no degredo. Procuram elas confortar aqueles novos condenados políticos, exortando-os a suportar, com resignação cristã, os sofrimentos que os esperavam. E dão a cada um deles um Evangelho, o único livro, aliás, cuja leitura era permitida na prisão. O cristianismo de Dostoievski já se havia manifestado antes do degredo, mas só no cárcere, na meditação constante dos versículos do Evangelho. esse sentimento absorve, por completo, dando-lhe uma visão diferente dos homens e do mundo. André Gilde lembra o efeito radicalmente oposto que produziu o mesmo livro no espírito de Nietzsche. O autor de Humano, Demasiado Humano rebela-se contra Cristo e para vingar-se Dele escreve o Assim Falou Zaratustra, no mesmo tom evangélico e messiânico. Dostoievski conforma-se admiravelmente aos ensinamentos de Cristo, descobrindo neles o verdadeiro segredo da Vida. A dor, as humilhações, a iniqüidade do castigo, a prisão - tudo se reveste de um novo sentido aos olhos do condenado. Como rebelar-se? Como culpar os homens? Como desesperar-se? Pois o castigo lhe parece agora indispensável, útil, precioso. Que seria da sua existência, sem essa terrível provação? A vaidade, o orgulho, a euforia de uma existência tranqüila haviam de embotar-lhe a alma. E bem mesquinha lhe parecia esta, sem a condenação d dor. Já quando ela fora preso, embora não prevendo o remate do processo, dissera, em carta ao irmão, que, afinal de contas, era melhor assim: os dias lhe corriam monótonos, preferia o choque o traumatismo. Sua tendência cristã ansiava pelo estado agônico, que a condenação lavaria ao paroxismo. Depois, aquela sensação inolvidável e terrificante da morte a dois passos. Passara o perigo. a vida continuaria, mas o fermento da mrote ficaria para sempre na alma de quem já a defrontara uma vez. O Evangelho trouxe solução para esse conflito. Na morte encontra-se o caminho da ressureição, o próprio segredo da vida. So o grão morre - diz a parábola de Cristo - então nasce o trigo. Dostoievski confessa que, no cárcere, sentia às vezees o coração bater com força ante o pressentimento da liberdade e murmurava consigo mesmo: "A liberdade - a ressureição dos mortos!" Entretanto, bem depressa se acalmava. Era preciso aprender a amar o sofrimento e comprazer-se na dor - aprender a "morrer". Sem isso, jamais poderia alcançar a graça da ressureição. No Evangelho de São João, Cristo anuncia a Nicodemus: "- Em verdade, em verdade vos digo que aquele que não nascer de novo não verá a meu Pai". Dostoievski aceita a "morte" para nascer novamente. Lê a Bíblia e procura fazer com que os companheiros leiam.
Mas trata-se de uma injustiça - dirão os que apreciam o drama do romancista, de fora - de um castigo iníquo: Dostoievski não chegou a conspirar, não tinha nenhum plano de revolução. Como deixar de rebelar-se contra essa sentença absurda? Ante tais palavras o romancista responderá, da mesma maneira que respondeu, mais tarde, a um amigo: "Não; a sentença foi justa e o povo nos teria condenado; eu o senti, lá na prisão. Depois - quem sabe? - talvez tudo isso fosse desígnio do Altíssimo, para que eu aprendesse o essencial, sem o que não podemos viver, mas nos devorarmos uns aos outros - e para que eu levasse o essencial aos meus semelhantes, tornando-os melhores, ainda que em pequeno número. Só isto justificaria minha ida à prisão."
Como se vê, o Evangelho baniu do espírito de Dostoievski a idéia de injustiça. O verdadeiro cristão nunca julgará injusto nem protestará contra o sofrimento, que lhe vem trazer a purificação necessária: o essencial. No conceito cristão, o homem veio à terra para expiar os seus pecados - são "os degredados filhos de Eva, neste vale de lágrimas" - e cumprirá tanto melhor o seu destino, quanto mais completa for a expiação. Interessante, porém, será notar como Dostoievski estabelece no plano social e político uma correspondência direta para a necessidade de castigo. Pelos desígnios do Altíssimo, a fim de encontrar o essencial, teria ido para o cárcere; mas está certo, ao mesmo tempo de que o povo o condenaria. Reconhece-se culpado perante Deus e perante o povo. Pois se, no cárcere, encontrou a verdade cristã, encontrou igualmente o povo russo no que este tem de essencial, na sua predestinação mística. Em carta a Maikov, em 1855, ele diz: "A infelicidade me ensinou muitas coisas; a experiência teve grande influência sobre mim e graças a ela me sinto cada vez mais russo". É a confissão da sua eslavofilia. Como se sabe, Dostoievski foi uma das maiores figuras da mentalidade eslavófila, que considerava os russos completamente diferente dos europeus, com um destino próprio, alheio aos imperativos da cultura ocidental. E antevia um glorioso futuro para a Rússia, na medida em que esta se preservasse de influxos estranhos. "Possuímos um superioridade senhores - dizia ao Visconde de Melchior de Vogüé -: é que os outros povos não nos compreendem, enquanto nós os compreendemos a todos". Na prisão, em contato direto com a alma popular, Dostoievski sente o quanto o russo se distancia dos ocidentais e as graças que lhe estão reservadas se ele se mantiver fiel a si mesmo. Pois bem, aquelas idéias de conspiração, de rebeldia, bafejadas por doutrinas européias, sem consultar as verdadeiras aspirações da Santa Rússia, lhe parecem criminosas e bem dignas de castigo. Pecara contra Deus e contra a Rússia. O povo condenaria - estava certo disso. O romancista identifica a natureza das duas culpas, pois sua consciência cristã se confunde com o sentimento eslavófilo. Por esse motivo, ainda, em lugar de voltar ódio ao tzar Nicolau I, que o fizera condenar inocente, chega a louvá-lo mais tarde, com entusiasmo. Não recebia de Deus o tzar o poder absoluto para governar os russos? E o povo não se habituara a chamá-lo de "Paizinho"?
Aqui nos tenta um interpretação freudiana - aventura em que não nos abalançamos, a fim de evitar mais um abuso de psicanálise literária. Limitamo-nos a alguns pontos de referência. Para Freud, o crime é muitas vezes a resultante de um sentimento de culpa inconsciente: o indivíduo sente a necessidade de punição e o único meio de obtê-la - quando não consegue sublimar o complexo ou dar-lhe um outro derivativo - é violar as leis. Em Dostoievski, a espécie de alívio que ele experimenta, logo ao ver-se encerrado no calabouço, e o reconhecimento de uma falta, que na realidade não cometeu, podem ser atribuídos igualmente àquela noção inconsciente de culpa, cuja origem seria encontrada, talvez, na infância, nos traumas morais do romancista. Os conflitos cristão e eslavófilo tornar-se-iam, então, as demonstrações de um drama inconsciente, que só a psicanálise lograria desvendar. Lembremos a particularidade do tzar representar para o povo russo qualquer coisa de semelhante ao super-ego do esquema freudiano. É a personificação do pai, o "Paizinho". As conspirações tomariam, pois, na Rússia, mais do que em qualquer outro lugar, certo caráter de parricídio, entroncando-se no famoso conflito do complexo de Édipo. Estas indicações vão, porém, aqui apenas a título de curiosidade. Dostoievski de há muito que vem sendo assunto de psicanálise e o próprio Freud prefaciou o livro de Ana Grigorievna sobre o marido.
Das Recordações da Casa dos Mortos saíram, por assim dizer, os maiores romances de Dostoievski, nos quais se debate, angustiosamente, o problema do bem e do mal, da culpa e do resgate. Crime e Castigo chega quase a ser um corolário das Recordações. Antecedendo Nietzsche e tornando-se deste verdadeiro verdadeiro precursor, Dostoievski pretendeu fazer de Raskolnikov um super-homem, capaz de sobrepor-se ao bem e ao mal, ao imperativo da moral humana. Mas, depois de cometido o delito, a consciência cristã do estudante reage e ele não sossega enquanto não confessa a culpa, que o levaria, como ao romancista, ao degredo da Sibéria. No Demônios e nos Irmãos Karamázovi, o escritor continua a reconstruir as experiências de prisão: são livros de criminosos e pecadores. Os grandes problemas têm sempre um aspecto moral outro psicológico, sendo que ambos se conjugam, com efeitos recíprocos. O aspecto moral se apresenta da seguinte maneira: o homem precisa sofrer para resgatar suas culpas. E o lado psicológico com estas interrogações angustiantes: Mas em que consiste a culpa? Num ato de maldade? Que é a maldade? Que sabemos dos nossos sentimentos? O amor leva à monstruosidades. O homem bom só experimenta, muitas vezes, impulsos maus. E quanta inocência podemos encontrar num pecador! Um sentimento bom possui, freqüentemente, o seu reverso mau. E ainda aqui teria sido a "Casa dos Mortos" a grande escola de Dostoievski. Não vira ele como as almas de algumas bestas-feras, de bandidos inveterados, imprevistamente se expandiam com tal riqueza de sentimento e cordialidade, com compreensão tão viva dos sofrimentos alheios e dos próprios, que pareciam feitos de ternura e pureza? E não percebera, por outro lado, como um homem fino e culto às vezes desconcertava pela barbárie, por um cinismo verdadeiramente repugnante? Sim, foi a prisão que inspirou ao romancista as bases do seu sistema psicológico; ali, no trato com os criminosos, aprendera que na lógica desconcertante da alma humana 2 e 2 nem sempre são 4. "Dostoievski, a única pessoa que me ensinou alguma coisa em psicologia!" - dissera Nietzsche.
Quando Dostoievski publicou as Recordações da Casa dos Mortos ainda repercutia na Europa a profunda impressão causada pelo livro de Sílvio Pellico: Minha Prisões. E não faltou quem comparasse a obra do romancista russo a esta última. De fato, além de constituirem ambas memórias de criminosos políticos, refletem uma atitude semelhante: a aceitação cristã da dor. Silvio Pellico foi, como se sabe, um poeta italiano, que conspirou contra o jugo austríaco, filiando-se à sociedade secreta dos "Carbonari", depois de já ter manifestado os anseios de liberdade em verso, na imprensa e em peças teatrais. Detido em outubro de 1831, esteve primeiramente na famosa prisão "Piumbi", de Veneza, de onde o transportaram para a fortaleza de Spielberg, na Moravia. Nove anos sofreu agruras do cárcere, sendo afinal indultado em 1840. Narrando ser martírio, Silvio Pellico não se revolta nem se desespera; longe de acusar os algozes, sua alma se desmancha em perdão e conformidade. Eis como explica ele o livro: "Teria escrito estas memórias pelo simples prazer de falar de mim mesmo? Desejo que assim não seja; e na medida em que podemos julgar os nossos próprios atos, parece-me que fui levado pela melhor das intenções: a de contribuir para o alívio de alguns infelizes com a narrativa dos males que sofri e das consolações que, por minha experiência, reconheci ser possível criar no infortúnio - a de afirmar que, no meio dos meus tormentos, não achei a humanidade tão injusta, tão indigna de indulgência, tão desprovida de nobreza moral, como costumamos representá-la - a de exortar os corações nobres a amar sempre e nunca odiar; não ter ódio irreconciliável senão pela mentira, covardia e toda espécie de aviltamento - a de repetir uma verdade, proclamada há muito tempo, mas sempre esquecida: de que a religião e a filosofia recomendam, uma e outra, a vontade enérgica e o julgamento imparcial, pois sem estas duas condições, não poderá haver nem justiça, nem dignidade, nem princípios certos".
Também Silvio Pellico, como Dostoievski, lia a Bíblia na prisão, haurindo nas suas páginas o conforto para todas as penas. Entretanto, apesar dessas semelhanças, a distância que separa os dois livros é bem grande. Silvio Pellico não passa de um escritor secundário. O que interessa em Mei Prigioni é principalmente o assunto - assunto humano, palpitante, emocionante por natureza, capaz de falar sempre ao coração dos homens. Nas Recordações da Casa dos Mortos, pelo contrário, há a descoberta de um mundo do espírito verdadeiramente genial. A obra contém em si muitos romances. Não basta o interesse do assunto: o talento - a genialidade, se quiserem - evidencia-se na maneira pela qual o tema foi explorado, pelos efeitos extraordinários que Dostoievski conseguiu deles tirar.
Dois decênios, mais ou menos, depois do aparecimento das Recordações da Casa dos Mortos, dava entrada na prisão do Reading, na Inglaterra, um escritor cujas peças tinham encantado o público londrino, o artista requintado de Dorian Gray - Oscar Wilde. A porta fechou-se, e lá ficou, nas suas vestes de forçado, sob rude disciplina, o aristocrático freqüentador dos salões e dos "halls" dos hotéis de luxo; o sibarita, habituado a vinhos finos e perfumes raros. Ao cabo de dois anos de trágica reclusão, toma ele da pena para escrever uma carta ao amigo mais querido, e essa carta se prolonga por muitas páginas, vindo a formar verdadeiro livro intitulado De Profundis. Também o prisioneiro do Reading punha acentos de agonia na voz e também transmitia sua mensagem da "Casa dos Mortos". Wilde teria lido Dostievski? Nas páginas do De Profundis há um comovente esforço de regeneração cristã. O poeta declara que quando sair do cárcere deseja viver como São Francisco de Assis. Onde estiverem a dor e o luto ali estará para consolar e chorar com os aflitos. Refere-se, num transporte místico, ao prazer da renúncia - essencia do Cristianismo - falando do sacrifício de uma maneira que faz lembrar a "religião do sofrimento" de Dostoievski. Alguns dos pensamentos mais belos sobre Cristo, nós o encontramos nessa longa e pungente epístola a Lord Douglas.
Entretanto, depois de deixar a prisão, o poeta não pode realizar os seus altos projetos de vida espiritual. Falta-lhe inteiramente a vocação cristã. Antes, parecera desejar o cárcere; esquivara-se a todas as insinuações de fuga; no fundo, ninguém duvidara de que ele quisera ser condenado; de que procurara o castigo. Reconhecia-se culpado e o cárcere seria a única solução para a angústia inconsciente que torutrava o homem, aparentemente tranqüilo e seguro de si mesmo: o vitoriosos "rei da vida". Mas depois do castigo, o sofrimento aniquila-o, arrasa-o, e o poeta, apesar das elevadas aspirações, não consegue reconstruir a existência em bases cristãs. Porque era visceralmente um pagão, um romano da decadência, como ele próprio confessara a Frank Harris. A índole pagã não encontra, geralmente, beleza nem sublimidade no sofrimento e por meio da dor jamais poderá engrandecer-se. Em lugar de assemelhar-se a São Francisco de Assis, o Wilde de post-cárcere torna-se apenas um bêbado, mal arranjado, pedindo dinheiro emprestado aos amigos. Para ele, a liberdade não fora, como para Dostoievski - índole profundamente cristã - a ressurreição dos mortos. Bem expressivo, portanto, nos parece o título da sua dramática mensagem do Reading: "De Profundis". Quando as portas do cárcere se fecharam, Wilde ficou definitivamente sepultado.
O cristão vê, porém, na dor, o ponto mais alto da existência. Nunca Dostoievski subiu tanto, como no momento em que o encerraram na prisão. Em última análise, que aí figurou como réu foi a própria humanidade. Pois os grilhões hão de cair por terra, as grades hão de romper-se, e o prisioneiro, aureolado de luz, numa miraculosa ascenção, ultrapassará os muros da cidadela (aquele muro a que se refere o herói da Voz Subterrânea), para atingir a suprema revelação do mistério.
"Em verdade, em verdade vos digo que aquele que não nascer de novo não verá a meu Pai".
Por BRITO BROCA. Rio de Janeiro, julho de 1945.