Doutrina de Zossima
Vede os leigos e todo esse mundo que se eleva por sobre o povo de Deus: não alteraram a imagem de Deus e a Sua verdade? Têm consigo a ciência - mas, da ciência, unicamente a parte que está submetida aos sentidos. Quanto ao universo espiritual, a metade superior do ser humano, foi renegado, e é triunfalmente expulso - com ódio, até. O mundo proclamou a liberdade, sobretudo no últimos tempos; que é porém que descobrimos com essa liberdade? Nada além da escravidão e do suicídio. Porque o mundo disse: "Tens necessidades, estão satisfaze-as, porque tens os mesmos direitos que os ricos e que os grandes. Não te arreceies de as satisfazer - ao contrário, multiplica-as." Tal é esta, hoje, a doutrina do mundo. É nisso, dizem, que consiste a liberdade. Mas que resulta desse direito à liberdade de multiplicar as necessidades? Nos ricos, o "isolamento" e o suicídio espiritual. Nos pobres, a inveja e o crime. Porque lhe deram direitos, mas ainda não indicaram os meios adequados para satisfazerem suas necessidades. Afirmam que o mundo se uniu muito mais, e que nele se estabelece uma fraternidade cada vez mais estreita, - porque diminuíram as distâncias e conseguiram transmitir o ensinamento através dos ares. Não acrediteis, porém, nessa união dos homens. Concebendo a liberdade como o poder de multiplicar as necessidades, e de as satisfazer rapidamente, os homens alteraram a sua natureza, porque fazem nascer dentro de si uma multidão de desejos estúpidos e insensatos, hábitos e pensamentos absurdos. Vivem apenas para a recíproca inveja, para satisfazerem o ventre e a vaidade. Dar jantares, ter lacaios, carruagens, títulos, escravos - tudo isso é considerado uma existência à qual sacrificam a vida, a honra e a existência alheia. E quem não consegue satisfazer sua necessidades, mata-se. Entre os que não são ricos observa-se a mesma coisa; e quanto aos pobres, esses ainda recorrem ao vinho para afogar a inveja e as necessidades insatisfeitas; mas em breve hão de se embriagar de sangue, em vez de vinho; é para isso que estão caminhando. E eu vos pergunto: um homem desses é livre? Conheci um desses "campeões da idéia"; contou-me que quando o privaram de tabaco na prisão, isso foi tão penoso que quase traiu sua idéia para o obter. E esse homem declarava: "luto pela humanidade". De que poderia ser ele capaz? Apenas de um esforço momentâneo, e não de uma ação contínua. Nada é de se admirar, pois, que os homens tenham afundado na servidão, em vez de atingirem a liberdade; e em vez de trabalharem pela fraternidade e pelo amor de todos, tenham chegado à discórdia e ao isolamento de cada indivíduo, como dizia meu visitante misterioso e meu mestre. É por isso que a idéia de dedicação à humanidade, a idéia de fraternidade e da união de todos se vai esgotando pouco a pouco no mundo e apenas desperta zombarias; porque, como nos desembaraçaremos dos nossos hábitos, e para onde irá esse escravo habituado a satisfazer a infinidade de necessidades que ele próprio inventou? Ele é sozinho e pouco se preocupa com o "conjunto". Enfim, conseguimos acumular mais riquezas, contudo a alegria diminuiu.
A vida monástica é diferente. Riem os mundanos da obediência, do jejum e da oração, - mas é apenas graças a eles que se chega à verdadeira liberdade; abro mão das necessidades supérfluas, inúteis; domino e flagelo, por meio da obediência, a minha vontade egoísta e orgulhosa, e com a ajuda de Deus alcanço assim a liberdade de espírito, e, com ela, a alegria espiritual. Entre esses dois - o rico solitário e o frade liberto da tirania das coisas e dos hábitos, - qual deles é mais capaz de exaltar uma grande idéia e servi-la? Censuram ao monge o seu isolamento: "está escondido atrás das paredes de um convento, para cuidares da tua salvação, e abandonas o serviço da humanidade". Mas vejamos quem serve melhor a causa da fraternidade. O isolamento existe não entre nós, e sim entre eles, - eles, porém, não o vêem. De nossas fileiras foi que saíram, desde os tempos mais antigos, todos os que trabalharam em prol do povo; e agora não seria assim também? Os mesmos ascetas humildes e mansos se hão de erguer novamente e realizarão grandes feitos. Do povo é que virá a salvação da Rússia. E o mosteiro russo sempre viveu em íntimo contato com o povo. Se o povo está isolado, nós o estamos também. O povo tem a mesma fé que nós temos, e um homem que não tiver fé nada poderá fazer na Rússia, mesmo que tenha o coração sincero e o espírito genial. Lembrai-vos bem disso. O povo se erguerá contra o ateu, e há de vencê-lo, e a Rússia ortodoxa continuará unida. Preservai pois o povo, velai pelo seu coração. Instruí-o no silêncio. É essa a vossa missão monástica, porque o povo é o portador de Deus.
Amos e servos podem se tornar uns para os outros irmãos em espírito? Decerto - e quem o poderá negar? O pecado também reina entre o povo. E o fogo da corrupção se multiplica de modo visível: vem do alto. Também no povo os homens começam a se isolar: os usurários e os açambarcadores aumentam as garras; o comerciante fica cada dia mais faminto de honras; aspira mostrar-se instruído, sem o ser absolutamente; e para o conseguir, despreza estupidamente os antigos costumes, e chega até a corar da fé dos seus pais. Corteja os príncipes, mas não passa dum mujique degenerado. A embriaguez apodreceu o povo, incapaz doravante de renunciar ao seu vício. E que crueldade usa com a família, com a mulher, com os próprios filhos! Tudo decorre da embriaguez. Vi nas fábricas crianças de nove anos, doentias, raquíticas, corcundas e já corrompidas. Uma sala sufocante, o ruído das máquinas, um trabalho incessante, palavras obscenas, e aguardente, aguardente... Será isso o que convém à alma de uma criança? Ela tem necessidade de sol, de brinquedos, de bons exemplos e ao menos de um pouquinho de amor! E isso não pode continuar. Frades! É mister que acabe o sofrimento das crianças! Erguei-vos e o proclamai, depressa! Mas Deus há de salvar a Rússia, porque embora o homem do povo esteja corrompido e não possa mais renunciar ao seu repugnante pecado, sabe entretanto que o pecado é amaldiçoado por Deus, e que procede mal pecando. E portanto, o nosso povo ainda acredita na verdade, reconhece Deus e chora, comovido.
Entre os grandes, a cena é outra. Esses, confiantes na ciência, querem se organizar eqüitativamente de acordo apenas com a razão, sem o Cristo, e já proclamaram que não existe crime, que não existe pecado. Dentro do seu ponto de vista, têm razão, porque onde não há Deus não pode existir crime. Na Europa, o povo já se levanta contra o ricos, e os seus chefes o insuflam a derramar sangue, e lhe ensinam que a sua cólera é justa. Mas "a sua cólera é maldita, porque é cruel."
Quanto à Rússia, o Senhor há de salvá-la, como já a salvou várias vezes. A salvação virá do povo, de sua fé, de sua humildade. Meus irmãos, meus mestres, preservai a fé do povo. Crede, não é ilusão: o que sempre me impressionou no nosso grande povo foi a sua nobre e legítima dignidade; posso atestá-la porque eu próprio a constatei muitas vezes, com espanto; vi-a com meus próprios olhos; e isso apesar da podridão do pecado, apesar do seu aspecto miserável. Nosso povo não é servil, embora tenha vivido em escravidão durante dois séculos. Suas atitudes e suas maneiras são livres, mas sem insolência. E nem é vingativo nem invejoso. "Se és poderoso, se és rico, se és inteligente, melhor para ti, que Deus te abençoe! Presto-te homenagem, porém sei que sou também um homem. E prestando-te homenagem sem te invejar, manifesto diante de ti a minha dignidade humana."
Na verdade, se eles não as dizem, (porque não o sabem ainda dizer), agem de acordo com estas palavras: eu próprio vi, eu próprio o experimentei. E crede - quanto mais o homem do povo é pobre e humilde, mais é manifesta nele esta verdade. Porque os que são ricos entre o povo, já estão corrompidos; mas a culpa disso nos cabe em grande parte por nossa negligência, por nossa indiferença. Deus entretanto há de salvar os seus, porque a Rússia é grande por sua humildade. Penso no nosso futuro e já o vejo claramente: acontecerá que o rico e depravado acabará envergonhando-se da sua riqueza em relação ao pobre; então o pobre, vendo a sua humildade, compreenderá e cederá, e responderá à sua nobre vergonha com palavras alegres e mansas. Não há igualdade senão na dignidade espiritual do homem; e isso hão de compreendê-lo, na Rússia. Assim que existirem irmãos, a fraternidade se há de estabelecer entre eles; enquanto não houver fraternidade, jamais conseguiremos uma partilha. Conservemos a imagem do Cristo, e ela há de resplandecer diante do mundo inteiro, como um diamante precioso...
Amém, Amém!
No decorrer de minhas peregrinações, encontrei certa vez na cidade de K., a minha antiga ordenança, Afanassi; já fazia oito anos que nos havíamos separados. Ele me avistou por acaso, no mercado, reconheceu-me e se precipitou para mim. Meu Deus, como parecia alegre! "Meu padre, barine, é o senhor? Será possível que eu esteja a vê-lo?" e levou-me para a sua casa. Depois de findar o tempo no exército, casara, tinha dois filhinhos, e vivia de um balcão de frutas, no mercado. A família ocupava um quarto, pequeno mas limpo e alegre. Ele me fez sentar, acendeu o samovar, mandou chamar a mulher, como se minha presença constituísse uma festa. E trouxe-me os filhos: "Abençoe-os, paizinho!" - "e cabe a mim abençoá-los? Respondi. Sou apenas um pobre frade. Rezarei a Deus por eles; quanto a ti, Afanassi, nunca te esqueci um único dia, nas minhas orações. Foi por tua causa que tudo começou." E expliquei-lhe tudo, o melhor que podia.
Mas vede o que é o homem: ele me olhava, sem se poder habituar à idéia de que eu, seu antigo amo, um oficial, estivesse à sua frente naquele estado, com aquele burel; e pôs-se a chorar. "Por que choras, perguntei - homem de quem nunca esqueci a lembrança? Alegra-te antes, porque o meu caminho é luminoso e cheio de alegria." Ele não dizia nada, mas não parava de suspirar e abanar a cabeça, penalizado. "Que foi feito de suas riquezas?" indagou afinal. "Dei-as ao mosteiro, onde vivemos em comunidade." Depois do chá, quando lhe fazia as minhas despedidas, ele me entregou de repente cinqüenta copeques para o mosteiro; mas vi que me enfiava furtivamente na outra mão outra moeda de cinqüenta copeques. "É para o senhor, que está de jornada; talvez lhe seja útil, paizinho." Aceitei a moeda, despedi-me do casal e parti feliz, pensando, enquanto caminhava: "Ambos nós, ele em casa e eu na estrada, suspiramos e abanamos a cabeça, e sorrimos alegremente, na felicidade do nosso coração, ao recordar como Deus nos pôs na presença um do outro." Desde então, nunca mais o revi. Eu era seu amo, ele era meu servo, e depois que nos abraçamos com amor e ternura, a união fraternal se realizou entre nós. Já muito refleti nisso, e digo agora: Seria inconcebível que essa união sincera pudesse, quando chegasse a hora, realizar-se por toda parte, entre os russos? Pois há de acontecer, estou certo, e a hora está próxima.
No que se refere aos servos, acrescentarei ainda isto: quando eu era moço, freqüentemente me acontecia zangar-se com os criados. "A cozinheira serviu a comida quente demais, a ordenança não escovou a roupa." Mas a lembrança do meu irmão querido me iluminou subitamente: "Serei digno de ser servido por um outro, dar-lhe ordens, aproveitando-me da sua ignorância e da sua miséria?" E admirava-me então que as idéias mais simples, mais evidentes, pudessem ocorrer tão tarde ao nosso espírito. O mundo não pode dispensar servidores, mas faze então com que teu criado se sinta, em tua casa, mais livre de espírito. Do que o seria se não fosse teu criado. Por que não posso eu ser criado do meu criado - e mesmo que ele o perceba - sem orgulho de minha parte e sem desconfiança da sua? Por que o servidor não há de ser como um parente que eu acabarei introduzindo na família, com alegria? Desde agora, a coisa é perfeitamente possível; e isso servirá de base à maravilhosa união fraternal do futuro, quando o homem não procurará mais quem o sirva, e não pensará mais, como hoje, em transformar os seus semelhantes em servos - mas, ao contrário, procurará com todas as forças de sua alma ser o servo de todos, segundo o Evangelho. Será apenas um sonho acreditar que o homem acabará por descobrir alegria unicamente nas obras de caridade e de ensino, e não como atualmente, nos prazeres cruéis da glutonaria, da luxúria, do orgulho, da gabolice, do triunfo sobre outrem? Creio firmemente que não, e que os tempos estão próximos. Riem e perguntam: "Quando virão pois esses tempos? Será provável que venham, a julgar pelo que se está passando?" e eu penso que realizaremos essa grande obra com o Cristo. Quantas idéias houve neste mundo, na história da humanidade, que surgiram de repente e se espalharam por sobre a Terra, quando a data misteriosa chegou, - idéias que, dez anos antes, teriam parecido inconcebíveis! O mesmo acontecerá entre nós; nosso povo iluminará o mundo e todos hão de dizer: "A pedra recusada pelos construtores tornou-se a pedra angular do edifício." E quanto aos zombeteiros, deve-se-lhes perguntar: "Se nossa crença é apenas um sonho, quando construireis o vosso edifício, e vos organizareis eqüitativamente, graças à simples força do vosso raciocínio, sem o Cristo?" Se eles afirmam que são eles, ao contrário, que caminham para a união, na verdade só os mais ingênuos são capazes de acreditar nisso, e a gente pode até se espantar da sua ingenuidade. Pois em verdade, há mais devaneios fantásticos entre eles que entre nós. Querem se organizar segundo a justiça, mas como rejeitaram o Cristo, acabarão inundando o mundo de sangue; porque o sangue chama o sangue, e aquele que feriu com o ferro, morrerá pelo ferro. E se não fôra a promessa do Cristo, eles se exterminariam entre si até que não restassem senão dois, sobre a terra. E mesmo esses dois, talvez fossem incapazes de controlar o próprio orgulho; o último exterminaria o penúltimo, e acabaria por se exterminar a si mesmo. Era o que aconteceria, se não fosse a promessa do Cristo, que por amor dos mansos e dos humildes terminará essa luta. No tempo em que eu era oficial, aconteceu-me, depois do meu duelo, falar numa futura sociedade de servos; lembro-me que todo mundo ficou muito espantado: "E teremos que instalar os criados no divã e lhes oferecer chá?" Respondi então: "Por que isso não poderia acontecer de tempos em tempos?" Puseram-se a rir. A pergunta era frívola, e minha resposta pouco clara. Mas penso que ela continha uma certa verdade.
Jovem, não esqueças a oração. De cada uma das tuas preces, conquanto ela seja sincera, nascerá um novo sentimento, e dele, um novo pensamento que ignoravas e que levantará tua coragem; compreenderás, então, que a prece é uma educação. Guarda ainda isto: cada dia e cada vez que puderes, repete mentalmente: "Senhor, tende piedade todos aqueles que aparecem hoje diante de Vós!" Porque a cada hora, a cada instante, milhares de seres humanos terminam a sua existência terrestre e suas almas comparecem diante do Senhor. E quantos entre eles deixaram a terra no isolamento, esquecidos de todos, na tristeza e na angústia, pensando que ninguém deles se apiedou, que ninguém soube sequer que eles existiram! E eis que, do outro lado do mundo, uma oração sobe até o trono de Deus pelo repouso de sua alma, embora jamais o tenhamos conhecido. Que conforto há de ser para a sua alma, que cheia de medo se apresenta ante Deus, sentir nesse instante que uma prece intercede por ela, que há na terra um ente humano que também a ama. E Deus vos contemplará a ambos com mais misericórdia; porque se tu tiveste piedade daquela alma, quanta piedade não a terá Ele, infinitamente mais misericordioso e mais amante do que tu! E Ele o perdoará por causa de ti.
Irmãos, não temais os pecados dos homens; amai o homem, mesmo nos seus pecados, porque ele é a imagem do amor divino e a mais alta forma do amor que há sobre a terra. Amai toda a criação de Deus, no seu conjunto e nas suas partes mais ínfimas. Amai cada folha, cada raio da luz de Deus. Amai os animais, amai as plantas, amai toda coisa. Se amares todas as coisa, apanharás nelas o mistério divino. E depois de o apanhares, compreendê-lo-ás cada vez melhor, cada dia mais. E acabarás amando o mundo inteiro com um amor completo, universal. Amai os animais: Deus lhes deu o germe do pensamento e da alegria inocente. Não a perturbeis, não os atormenteis, não lhes roubeis a sua alegria, não os oponhais ao pensamento de Deus. Não sejas orgulhoso em relação aos animais: eles são sem pecado, e tu, com toda a tua grandeza, manchas a terra desde a tua aparição, e deixas após ti rastros de corrupção, ai! - como quase todos nós! Ama particularmente as crianças, porque elas são sem pecado, como os anjos; vivem para a alegria e purificação dos nossos corações, e nos servem de sinal, de roteiro. Desgraçado daquele que ofende uma criança! O padre Anfime ensinou-me a amá-las; ele, tão meigo e tão silencioso, com os copeques que nos davam comprava doce e balas para lhes oferecer; e não podia passar onde havia crianças sem sentir a alma comovida. Assim é o homem.
Diante de certas coisas fica perplexo, sobretudo avistando o pecado, e perguntas: "É preciso agir pela força ou pelo amor humilde?" Dize sempre: agirei pelo amor. Se a isso te resolveres definitivamente, conseguirás vencer o universo inteiro. A humildade amante é uma força imensa, a maior de todas, não tem igual. Cada dia, cada hora, cada minuto, cuida em ti, cuida em manter sempre um rosto benévolo. Passas junto de uma criancinha: passas irritado, com más palavras na boca, a alma cheia de cólera; talvez tu próprio não avistasses aquela criança; mas ela te viu, e quem sabe se a tua imagem ímpia e feia não se gravou no seu coração indefeso! Talvez o ignores, mas quem sabe se já disseminaste na sua alminha uma semente má que germinará! E tudo isso, por quê? Porque não te controlaste em frente à criança, porque não desenvolver em ti o amor atento e inteligente.
Meus irmãos, o amor é um mestre sábio, mas é preciso encontrá-lo, - e ele se encontra com dificuldade, a alto preço, - às custas de um longo trabalho, porque devemos amar não fortuitamente, e por um momento apenas, mas para sempre. Transitoriamente qualquer um pode amar e até os maus amam. Meu irmão Markel pedia perdão aos pássaros; isso parece absurdo e entretanto ele tinha razão; porque o mundo é um oceano onde tudo flui, tudo se toca. Age-se num lugar, e a nossa ação repercute do outro lado do mundo. É loucura, admitamos, pedir perdão aos pássaros. Porém a vida seria fácil de viver para os pássaros, para as crianças, para o animal, junto a ti, se tu próprio fosses mais puro, melhor do que és agora, - um pouquinho que fosse. Já vos disse, o mundo é semelhante ao oceano. E então tu rezarás pelos pássaros, atormentado por um amor total, numa espécie de deslumbramento; e por absurdo que pareça aos homens, amai esse deslumbramento!
Meus amigos, pedí a Deus a alegria. Sede alegres como as crianças, como os pássaros do céu. E que o pecado das criaturas não vos perturbem na vossa atividade; não receeis que ele sufoque a vossa obra e a impeça de se cumprir; não digais: "O pecado é forte, forte é a impiedade, forte é o mau exemplo, e nós somos sós e fracos; o mal nos sufocará e impedirá que a boa ação se realize".
Fugí, meus filhos, dessa tristeza. Nesse caso, só há um meio de salvação: tomai sobre os vossos ombros os pecados humanos, e tornai-vos responsáveis por eles. E com efeito, amigo, mal te tenhas encarregado sinceramente dessa responsabilidade por todos e por tudo, descobrirás logo que assim é realmente, e que és culpado por tudo e por todos. Entretanto, se descarregas a tua preguiça e a tua impotência sobre os outros, chegarás a um orgulho satânico e murmurarás contra Deus. Quanto ao orgulho satânico, penso sobre ele o seguinte: é difícil para nós, na Terra, compreendê-lo; e portanto nos é muito fácil incorrer em erro, e cair nele, mesmo que imaginemos estar realizando uma ação grande e bela. E aliás, entre os sentimentos mais poderosos e o impulsos mais violentos da nossa natureza, ainda existem muitos que não podemos compreender neste mundo. Que isso não te induza em tentação e não creias que te possa servir de justificação, porque o Juiz eterno só te pedirá contas do que podias compreender e não do que era para ti inconcebível; convencer-te-ás por ti próprio, porque então discernirás tudo completamente e não discutirás mais.
Na Terra, ao contrário, nós nos enganamos, e se não tivéssemos diante de nós a imagem preciosa do Cristo, perder-nos-íamos definitivamente, sucumbiríamos, como o gênero humano antes do Dilúvio. Muitas coisas deste mundo nos são dissimuladas, mas em compensação Deus nos concedeu a sensação misteriosa do laço vivo que nos une ao outro mundo, o mundo celeste, superior; e, aliás, as próprias raízes dos nossos pensamentos e dos nossos sentimentos não estão em nós, porém em outra parte. E é por isso que os filósofos dizem que não se pode conhecer na Terra a essência das coisas. Deus tomou sementes que pertenciam a outros mundos, semeou-as nesta terra e cultivou o seu jardim. O que podia germinar cresceu, mas tudo que se pode desenvolver não viveu senão graças ao sentimento do seu contato com outros mundos misteriosos; se esse sentimento enfraquece ou desaparece da tua alma, tudo o que floriu dentro de ti morrerá. E então ficarás indiferente para com a vida, chegarás a odiá-la. É este o meu pensamento.
Lembra-te especialmente que não podes ser juiz de ninguém. Porque o juiz neste mundo não pode julgar o criminoso antes de reconhecer que ele próprio é tão criminoso quanto o homem que está à sua frente, e que talvez ele é mais culpado do que ninguém do crime daquele homem. Quando o houver compreendido, poderá ser juiz. Por mais absurdo que isso pareça, é a verdade. Porque se eu fosse um justo, talvez esse homem que está à minha frente não fosse um criminoso. Se és capaz de tomar sobre ti o crime do homem que está diante de ti, e que teu coração julga, faze-o então, sofre em seu lugar, e deixa-o partir sem lhe fazer censuras. E mesmo que a própria lei te haja constituído juiz desse homem, - age nesse mesmo espírito, porque, quando o houveres mandado embora, ele se condenará mais severamente do que o condenarias. Mas se ele te deixa, insensível à vergonha e zombando de ti, não sucumbas à má tentação: há que a hora dele ainda não chegou, porém chegará; e se não chegar - não importa! Se não for ele, outro compreenderá no seu lugar, sofrerá, se julgará, se condenará sozinho, e a verdade ficará assim cumprida. Crê nisso, crê firmemente, porque é nisso que residem toda a fé e toda a esperança dos santos.
Age sem repouso. Se antes de dormir, à noite, tu te lembras: "Não realizei o que devia", levanta-te imediatamente e faze-o. Se estás cercado de gente má e insensível que se recusa a te ouvir, põe-te de joelhos diante deles e pede-lhes perdão, porque em verdade também é tua culpa se eles não te querem escutar. Mas se não lhes podes falar, serve-os humildemente, em silêncio, sem jamais desesperar. E se eles se afastam de ti, e até mesmo te expulsam, então, quando te vires só, prosterna-te, beija a terra, banha-a com tuas lágrimas, e a terra fecundada por tuas lágrimas dará frutos, mesmo que ninguém te veja nem te escute na tua solidão. Sê firme na tua fé, mesmo que todos se pervertam e tu permaneças o único fiel: realiza então o teu sacrifício e louva a Deus, - só e fiel. E se sois dois, então já formais um mundo inteiro, um mundo de amor vivo; abraçai-vos com alegria e glorificai o Senhor, porque a verdade se cumpriu embora apenas em vós ambos.
Se pecaste e os teus pecados ou um pecado fortuito te aflige até a morte, alegra-te então por um outro, alegra-te por um justo, alegra-te porque, se tu pecaste, ele ao menos é justo e sem pecado.
Se a maldade dos homens te enche de uma tristeza e de uma indignação invencíveis, até te dar um desejo de vingança, teme acima de tudo esse sentimento; procura imediatamente uma penitência, como se fosses o culpado dos seus crimes. Aceita essa penitência e suporta-a; teu coração te pacificará, e compreenderás que com efeito és culpado, porque terias podido alumiar os culpados sendo embora o único justo, e não o fizeste. Se os houvesses esclarecido, tua luz ter-lhes-ia mostrado o caminho, e aquele que cometeu o crime não o cometeria à tua luz. E mesmo se, depois de os esclarecer, vês que não querem entrar no caminho da salvação, continua firme e não duvides do poder da luz celeste. Fica certo que os que não forem salvos agora, sê-lo-ão mais tarde. E se não, os seus filhos serão salvos, porque a luz não se há de apagar, mesmo que já não estejas mais vivo. O justo morre mas fica a luz, e o salvador salva depois da sua morte. O gênero humano não quer aceitar os profetas e lhes atira pedras, porém ama os seus mártires e venera aqueles a quem faz morrer. E afinal, tu trabalhas pelo todo, laboras pelo futuro. Não procures nunca recompensa, porque já existe uma recompensa suficientemente grande neste mundo: a alegria espiritual que só o justo conquista. Não receies os grandes nem os poderosos, procura ser sempre cheio de sabedoria e beleza interior. Conhece a medida, conhece a hora, aprende isso recolhido à tua solidão, reza. Prosterna-te com amor e beija o chão. Beija a terra e ama-a incansavelmente, insaciavelmente, ama a todos e a tudo, procura esse arrebatamento e esse êxtase, porque ele é um grande dom de Deus, que não é concedido senão a um pequeno número, aos eleitos.
Irmão e mestres, às vezes medito: "Que é o inferno?" E respondo assim: "É o sofrimento de não poder amar." No infinito, que nem o tempo, nem o espaço podem medir, foi dado a um certo ente espiritual o poder de dizer: "Existo, amo". Uma vez, uma vez apenas, lhe foi dado um instante de amor, ativo, vivo, e com esse fim lhe foi concedida a vida terrestre, e com a vida terrestre, o tempo e os limites. Pois esse ente feliz repeliu o dom inestimável, não o soube apreciar. Não o apreciou, não teve para ele senão ironia, e a ele ficou insensível. E assim, ao deixar a Terra, viu o seio de Abraão, conversou com Abraão, segundo nos é contado na parábola do rico e de Lázaro; ele contempla o paraíso e pode subir até ao Senhor mas justamente o que constitui o seu sofrimento - é que chegará junto do Senhor, sem amor, e se aproximará daqueles que o amaram, daqueles cujo amor desdenhou. Porque ele vê com clareza, e diz a si próprio: "Tenho agora o conhecimento, mas embora tenha sede de amor, meu amor já não será mais ativo; não comportará nenhum sacrifício porque minha vida terrestre está terminada, e Abraão já não virá pacificar, seja embora com uma gota de água viva, (quer dizer, pelo dom de uma nova vida terrestre) a sede ardente de amor espiritual em que me abraso, depois de o haver desdenhado na Terra. A vida está terminada, e minha hora não voltará mais. Sentir-me-ia feliz em dar a minha vida pelos outros, mas é tarde demais, porque a vida que eu poderia sacrificar ao amor já está passada, e um abismo se abre entre essa vida e o meu ser atual."
Fala-se do fogo do inferno, do fogo material: não sondo esse mistério, tenho medo; mas penso que, mesmo se essas flamas materiais existissem, os condenados se alegrariam com elas: porque, ao menos por um momento, esqueceriam nos tormentos físicos a sua tortura moral, muito mais assustadora. E é impossível libertá-los dessa tortura moral, porque ela está neles, não é um agente externo. E mesmo que pudéssemos libertá-los, penso que seus sofrimentos seriam ainda mais amargos. Pois mesmo que os justos do paraíso, vendo-lhes os tormentos, os perdoassem e os chamassem a si, no seu amor infinito, excitariam ainda mais neles aquela ardente sede de amor ativo, reconhecido, que desejariam dar em compensação, mas do qual são para sempre incapazes. Na timidez receosa do meu coração, digo a mim mesmo que entretanto a própria consciência dessa impossibilidade talvez acabe por aliviá-los, porque, tendo aceito o amor dos justos sem lhes poder corresponder, eles hão de encontrar afinal nessa submissão, nessa mesma humildade, como que uma imagem, um reflexo daquele amor ativo, que na Terra desdenharam.
Lamento, meus irmãos, não poder exprimir isso mais claramente. Mas ai daqueles que se destruírem a si próprios, nesta Terra; ai dos suicidas! Creio que não pode haver ninguém mais desgraçado. Dizem que é um pecado rezar por eles, e a Igreja aparentemente os repele; mas, no segredo do meu coração, penso que talvez possamos orar também por eles. O Cristo não nos condenará por termos amado. Confesso-vos, meus padres e meus irmãos, que sempre rezei malgrado meu por esses infelizes, e que ainda hoje o faço.
Oh! decerto há deles que, mesmo no inferno, se mantêm altivos, orgulhosos, apesar do seu conhecimento incontestável, e embora contemplem a verdade. Há alguns deles, terríveis, que pertencem totalmente a Satã, e ao seu espírito de orgulho. Esses são mártires voluntários. Estão no inferno porque assim o querem e dele não se fartam. Porque se amaldiçoaram a si próprios, amaldiçoando-se a si, amaldiçoando a Deus e a vida. Sustentem-se com seu ódio orgulhoso, semelhantes a um esfomeado no deserto, que se pusesse a sugar o próprio sangue. Mas são para sempre inconsoláveis; repelem o perdão e amaldiçoam a Deus que os chama a Si. Não podem contemplar sem ódio o Deus vivo e exigem que Ele não exista mais, que destrua a Sua criação, e se destrua a Si próprio. Arderão eternamente no fogo da própria cólera, terão sede da morte e do nada. Todavia não obterão a morte..."
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